Aparição da Santa na Gruta da Ventania – 1899

Pe. Vicente Bianchi na inauguração da Capela da Gruta.

Foi no início do ano de 1899 que sugiram os primeiros rumores sobre o suposto aparecimento de uma ‘Santa’ em Ventania. A notícia correu rapidamente, trazendo romarias de várias partes de Minas Gerais e de outros estados, que aqui chegavam em busca de curas milagrosas. A matéria veiculada na época pelo jornal Gazeta de Passos, edição datada de 18 de março de 1899, trazia as seguintes informações sobre esse fenômeno que agitou o pequeno arraial, que contava então com cerca de cinco mil habitantes. Abaixo vai a fiel transcrição de trechos deste artigo do periódico passense:

 

A SANTA DE VENTANIA 

…Há dois meses, mais ou menos que ocupa a atenção do público a notícia do aparecimento de uma santa, na vizinha freguesia de São Sebastião da Ventania.

…o Diretor deste Jornal, acompanhado de um de nossos repórteres seguiu para aquela freguesia no dia 10, tendo regressado quatro dias depois…hospedamos em casa do nosso amigo Francisco Pio Brasileiro.

…No percurso de meio quilômetro, que é a distância que separa a Gruta da povoação, encontramos grupos de mulheres e homens que conversavam sentados a beira do caminho: Eu vi a Santa, dizia uma mulher a um grupo. – Eu vi um São José, afirmava um caipira ao outro. …nos detivemos por alguns instantes junto de um grupo que se estacionava ao pé de uma barraca que existe no alto… o Sr. Leopoldino, um velho fogueteiro, residente há muitos anos na Ventania e que nos informou o seguinte, sobre o aparecimento da Santa: – dois meninos banhavam-se no lago que existe junto à Gruta, quando ouviram rumor n’água. Voltando-se assustados, viram que uma mulher de estatura pequena, vestida de branco e com uma capa azul estava sob a superfície da água. Amedrontados com aquela aparição os dois pequenos correram, mas encorajando-se um pouco voltaram, e, como vissem que a aparição continuava no mesmo lugar, um deles, o mais ousado, atirou-lhe uma pedra. A Santa, então, voou para outra Gruta, conservando-se ali, até que aparecesse um homem a quem os meninos tinham ido comunicar o fato.

…Cansados de estarmos ouvindo aquela gente fanática, eu e meus companheiros resolvemos continuar o nosso caminho… Nas proximidades da Gruta, acampados à margem de um ribeirão estendem-se em filas muitas barracas.

…Entre quinhentos e tantos peregrinos que lá encontramos… deste e de outros Estados… morféticos em estado verdadeiramente repelente afirmavam-nos estarem sarando com o uso da água da fonte.

…Não podendo… tomar  notas de todas as pessoas que dizem ter-se curado na famosa fonte, tomamos apenas nota dos seguintes nomes… que estavam próximos… era dificílimo transitar em meio de tanta gente: Antônio Jorge Pinheiros, residente em Muzambinho, tendo feito uso dos banhos acha-se completamente são, tendo deixado as muletas na Gruta. Cândido José da Silva, foi de Santa Rita de Cássia, atacado de reumatismo nas pernas, voltando em estado perfeito de saúde. A esposa do Sr. Francisco Claudino, fazendeiro residente neste distrito acha-se igualmente curada de reumatismo que sofria há muitos anos. Paulo Gonçalves, morador em São José da Barra, sarou de paralisia que sofria em um braço.

…Domingo, dia 12 do corrente, voltamos de novo à Gruta para assistirmos o levantamento de um cruzeiro que havia sido conduzido em procissão. Mas de treis mil pessoas enchiam as imediações da Gruta…

…Para servirem alguns parentes ou amigos tiravam o limo (barro) acondicionando-o em pequenos frascos que eram às vezes comprados por 2$000 ou 3$000…

…Domingo à noite foi o nosso companheiro surpreendido pela visita do Revmo. Vigário, Padre Vicente Monte-Beluna e muitos outros dignos cidadãos que, acompanhados pela excelente Banda de Música Ventaniense, e ao estrugir de foguetes se dirigiram à casa do nosso prezado amigo Francisco Pio Brasileiro, negociante, onde se achava hospedado o diretor deste Jornal. Aí falou em nome do povo Alpinopolense o talentoso farmacêutico José Ferreira Pádua.

Antonio Celestino

 

Em 18 de julho de 1899 chegava a Ventania o vigário José Paulino de Andrade, enviado pela Diocese de São Paulo para verificar de perto os supostos fatos extraordinários que estavam acontecendo no arraial. O visitador registrou nos Livros do Tombo que o povo foi ao seu encontro há quase duas léguas do povoado. Padre José Paulino relata ainda que ficou hospedado na casa de D. Marianna Carolina Figueiredo, a quem se referiu como uma “respeitabilíssima matrona”. Nada deixou registrado sobre os acontecimentos na Gruta.

CAPELA DA GRUTA

Após os rumores, a população passou a reivindicar a edificação de uma capela naquele local que ficou conhecido como ‘Gruta das Águas Virtuosas’. A concessão para levantar construção veio em 1923, autorizada pelo Pe. Vicente Bianchi, e assim foi feito. No dia 10 de junho daquele ano, um domingo, saíram fiéis em procissão, da Matriz até a Capela da Gruta, caminhando piedosamente para a inauguração, bênção e entronização da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Durante a cerimônia, os fiéis ouviram um eloquente sermão proferido pelo Pe. Euzébio Leite.

OUTRA SANTA

Em 1948 novos rumores de outro aparecimento surgiram em Alpinópolis. Dessa vez, o local da suposta aparição era um buraco com diâmetro de pouco mais de 40 cm, uns 3 cm de comprimento, fazia uma curva à direita, num barranco de dois metros de altura, frente a uma embaúba, na saída do Pacheco, hoje, imediações do bairro Jardim Panorama.

Alguns fiéis chegavam a colocar sua saúde em risco, entrando naquele buraco de onde saíam bruscamente com falta de ar, chorando e a contar estranhos causos daquilo que tinham visto lá dentro. De fora, a multidão cantava, rezava e ficava a comentar as novidades de cada dia. No entra-e-sai de pessoas, o buraco foi aumentando e aflorou uma mina lá no fundo, de onde passou a correr um fio d’água, formando um pequeno poço.

José Iglair Lopes, um menino com então 13 anos, curioso que era, não deixou de averiguar os comentários mais recentes sobre o fenômeno, de que uma estrela podia ser vista no local. Porém, de acordo com o relato do historiador, o que se via não era exatamente uma estrela e sim uma roseta de espora…

A Igreja Católica, prudentemente, nada manifestou sobre os rumores desse suposto aparecimento. Pe. Vicente estava tão ocupado com a inauguração da nova Matriz – ocorrida em 1949 – que nem lá foi. O caso foi encerrado como antes já havia acontecido na Gruta.

 

Referência Bibliográfica: LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

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