Verônica canta solitária e sem fiéis na Sexta-Feira da Paixão em Alpinópolis

Mais uma vez, a celebração da Semana Santa está sendo diferente em Alpinópolis, assim como no resto do mundo, em função das medidas sanitárias adotadas para o enfrentamento ao coronavírus. Como em 2020, a Paróquia de São Sebastião não deixou de cumprir a programação característica dessa época, porém sem a presença física da comunidade católica nos templos. As cerimônias vêm sendo realizadas e transmitidas por meio das redes sociais e pela rádio comunitária local.

A Semana Santa sempre foi um período de grande apelo religioso e cultural em Alpinópolis, isso desde os tempos de São Sebastião da Ventania. No entanto, uma das mais antigas tradições da cidade, o Canto da Verônica, entoado no decorrer da procissão do Senhor Morto, novamente não foi realizado na presença da multidão, como de costume. A tradição não deixou de ser cumprida, porém a Verônica, pelo segundo ano consecutivo, cantou sozinha e sem o acompanhamento das Beús, já que as participantes são, no geral, mulheres de mais idade e, portanto, pertencentes ao grupo de risco.

Na celebração desta sexta-feira (02), ocorrida na Matriz de São Sebastião e conduzida pelo padre Donizetti Brito, a ritualística foi seguida como de costume, contudo sem fiéis presentes no templo. Após o rito do descendimento da cruz – quando a imagem de Jesus é retirada do madeiro, levada ao colo de Maria e, por fim, colocada no esquife – foi proferido o Sermão das Sete Palavras – reflexão sobre as últimas palavras ditas por Cristo antes da morte – e, em seguida, entoado o canto da Verônica. A consumação de toda essa liturgia foi transmitida, em tempo real, pelas redes sociais (YouTube e Facebook) e também pela Rádio FM Ventania.

Já a procissão do Senhor Morto não foi realizada, obviamente, devido às recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) para que sejam evitadas, em qualquer hipótese, aglomeração de pessoas. Como tal cortejo é um dos eventos que reúne o maior número de participantes em Alpinópolis – em 2019 foram 10 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar – a paróquia optou, obviamente, por não realiza-lo.

Mesmo diante das limitações impostas pelo novo coronavírus, é fato que a Sexta-Feira da Paixão não deixou de exercer profundo fascínio junto à população católica alpinopolense. A mística e o aspecto melancólico permaneceram incólumes no momento em que a Verônica desenrolou o sudário e cantou, para as câmeras e microfones, a conhecida canção que é, na verdade, uma adaptação das Lamentações de Jeremias (Lm 1,12). Foi a segunda vez que essa tradição, cultivada na cidade desde 1885, aconteceu sem público presencial. A primeira vez foi no ano passado, quando o mundo já era fustigado pela pandemia.

Em Alpinópolis, diferentemente de outros locais onde o canto é realizado, podem ser identificadas supressões na primeira estrofe da peça, que é baseada no texto do cântico da obra do italiano renascentista Carlo Gesualdo. Dessa forma, o vocábulo similis, do segundo verso e o inteiro teor do terceiro verso, desaparecem, para permitir a sonorização do lamentoso cântico, que assim fica entoado:

O vos omnes / O vos omnes / Qui transitis / Per viam / Attendite / Attendite / Et videte / Si est dolor / Si est dolor / Sicut dolor / Dolor meus / Heu! / Heu Domine / Salvator noster! / Salvator noster! / Stabat mater dolorosa / Juxta crucem, lacrimosa / Dum pendebat Filius / Virgem piedosa! / Virgem mãe de Deus! / Pelas vossas dores / Abre-nos os céus / Pelas vossas dores / Abre-nos os céus.

Na cidade, sem distinção entre falecidas e vivas, Verônicas e Beús, por ordem de estreia ou de permanência, atuaram e atuam devotamente: América Kraüss, Negrinha do João Barqueiro, Tonha do Zé Miguelinho, Maria do Tiãozinho Cardoso, Sulica do Zé Gabriel, Anita da Dona Basília, Maria José do Zé Barba, Aparecida Pereirinha, Dorvalina, Gasparina dos Reis, Dona Rola, Lucinha, Dona Luzia, Fia do Pedro Cândido, Luzia do Noé, Luzia do Antônio Custódio, Cida Ferreira, as irmãs Cida e Naninha, Cristina do Geraldo, Graça Kraüss, Márcia Kraüss, Mercedes Kraüss, Edília do Tião, Carminha Ribeiro, Selma Ribeiro, Edna Ribeiro, Vânia Ribeiro e Ângela Ribeiro.

Antes da mística cantoria, existe a ritualística retirada da imagem do Cristo. Essa cerimônia é realizada por quatro homens – representando Nicodemos e José de Arimatéia – que se apresentam vestidos de túnicas com gorrões (capuzes) brancos, tendo as cinturas cingidas por cordões brancos. Antes do traslado e colocação no esquife, a imagem é direcionada a uma jovem que representa Maria, mãe de Jesus.

Este ano quem personificou a Verônica foi Ana Maria dos Reis (Naninha). O papel de Maria foi feito por Nayane Freire e, como ‘Josés de Arimatéia’, estiveram Noé Firmino, Nego Braga, Renato e José Borges.

Uma inovação das celebrações deste 2021 é a vestimenta da imagem de Nossa Senhora das Dores, que ganhou nova roupagem. Em anos anteriores, a santa sempre aparecia vestida de roxo, em todos os dias do ano, quando fica exposta na Igreja do Rosário, inclusive durante a Semana Santa. Dessa vez foi confeccionado um suntuoso vestido negro para ser usado especialmente na Sexta-Feira da Paixão e, no Domingo de Páscoa, a santa usará uma veste branca.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: Lopes, Dimas Ferreira; Lima, Maria Conceição Alves de. Ventania (MG): tradição e devoção: um enfoque cultural / Dimas Lopes e Conceição Lima. Ribeirão Preto: Maria Conceição Alves de Lima, 2016. 212f. ISBN: 978-85-917511-2-9

 

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