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Aumento da jornada de trabalho desagrada servidores da Prefeitura de Alpinópolis

Claudio Krauss
Aumento da jornada de trabalho desagrada servidores da Prefeitura de Alpinópolis

Uma decisão tomada recentemente pelo prefeito José Gabriel dos Santos Filho, o Zé da Loja (PSD), deve render muitas polêmicas no próximo dia 1º de novembro. A partir desta data o quadro de servidores da Prefeitura de Alpinópolis será obrigado a cumprir oito horas diárias de jornada laboral, ao invés das seis horas que vinham sendo cumpridas nos últimos 20 anos. O Executivo alega que a definição tem o objetivo de adequar o horário de trabalho com o que determina a legislação – que prevê 40 horas semanais –, além de atender uma recomendação do Ministério Público. A medida desagradou a maioria do funcionalismo que a considerou injusta, já que não levou em conta diversos fatores correspondentes às funções que exercem.

A deliberação do prefeito vai de encontro à postura adotada por ele próprio, que há dois anos, por meio de um ato (Decreto 3.516 de 28 de agosto de 2017), regulamentou a diminuição da carga horária dos servidores (prevista para 40 horas semanais nos respectivos concursos) de oito para seis horas. Segundo o documento, a medida se justificava tendo em vista, entre outras coisas, que o funcionalismo já vinha cumprindo essa jornada reduzida há décadas. No entanto, o citado decreto previa também que, em caso de necessidade de se completar a carga horária, os beneficiários não receberiam hora-extra até o limite relativo às oito horas.

A jornada vinha sendo realizada nos referidos moldes até que alguns servidores lotados no Departamento Municipal de Saúde, os quais atendem a programas federais e, portanto, são obrigados a fazer oito horas, resolveram ingressar com uma representação junto ao Ministério Público, questionando a legalidade da redução do horário dos demais cargos efetivos. Diante do fato, a promotora Larissa Brisola Brito Prado, por julgar justa a demanda, recomendou ao prefeito que revogasse o decreto, já que entendia ser o mesmo ilegal, e estabelecesse o que é determinado nas leis municipais e nos concursos realizados, ou seja, que fossem cumpridas as oitos horas.

O prefeito acatou a recomendação e, no último 27 de setembro, emitiu um comunicado informando que a nova carga horária a ser cumprida seria de oito horas diárias – que totaliza 40 semanais – a partir de 1º de novembro. A exceção nesse total é apenas para os cargos de médico e psicólogo, cujo concurso prevê 20 horas semanais.

A decisão desagradou a maioria do funcionalismo que considerou injusta a medida que, mesmo tendo base legal, não leva em conta fatores relevantes como defasagem salarial da categoria, o descumprimento de direitos trabalhistas e dispositivos presentes no plano de carreira, entre outras coisas. Um ponto importante lembrado, notadamente pelas servidoras que são mães e têm filhos em idade de frequentar creches, foi a dificuldade de readaptação ao novo período, já que há muito estão com as rotinas organizadas de acordo com a carga de seis horas e, portanto, a mudança traria sérios transtornos, inclusive financeiros, uma vez que muitas precisariam contratar babás.

Fato inusitado é que Maysa Marques Oliveira Brasileiro, ocupante do cargo comissionado de diretora do Departamento Municipal de Saúde, posicionou-se em sentido oposto ao prefeito e declarou, em nota datada de 12 de setembro, não ter nada contra a continuidade do cumprimento das seis horas por parte de seus subordinados, uma vez que o trabalho vem sendo executado de forma satisfatória no setor, sendo o atendimento feito ao público com presteza e qualidade, não havendo, portanto, nenhum prejuízo no serviço. Ela foi além ao afirmar que, na época em que servidores do departamento cumpriram as oito horas, foi um período tumultuado, já que a nova jornada causou vários transtornos na vida pessoal dos trabalhadores, o que acabou refletindo negativamente no ambiente laboral.

Como esperado, o Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Alpinópolis (Sempre) se posicionou contrário à medida do prefeito e solicitou, por meio de ofício, que o Executivo propusesse uma lei municipal que estabelecesse, de vez, o cumprimento de apenas seis horas. “São mais de 20 anos que os servidores vêm fazendo seis horas diárias e todas as tentativas feitas para realizar tal diminuição, por parte de administrações anteriores e das mais recentes, foram fracassadas. O sindicato está ciente da legislação e das exigências dos concursos, porém é importante levar em conta diversos fatores, principalmente a questão salarial da maioria dos funcionários, cujos vencimentos estão terrivelmente defasados. Há também o lado da falta de aplicação de diversos dispositivos previstos no plano de carreira dos servidores e o descumprimento de direitos trabalhistas. Por esses motivos, e ainda outros que serão detalhados em seu tempo, é que pedimos para que o prefeito propusesse um projeto de lei que regulamentasse, de uma vez por todas, a jornada em seis horas diárias”, disse o presidente da entidade, Benedito José de Oliveira. Apesar dos apelos do sindicalista, o pedido foi negado pelo prefeito.

Diante da determinação de Zé da Loja, fazendo um contraponto, a presidente da Câmara Municipal, Sandra Aparecida Carvalho Nascimento, a Sandra do Nequinha (MDB), saiu em defesa da categoria – da qual também faz parte – e encaminhou uma indicação pedindo ao Executivo que passasse a cumprir o previsto na lei, que garante vários direitos aos servidores que, em tese, não vêm sendo observados. Entre eles estariam a oferta de assistência e previdência social, adoção de políticas públicas para profissionalização e aperfeiçoamento do trabalhador, remuneração compatível com a complexidade e a responsabilidade das tarefas, disponibilização de assistência médica, dentária, farmacêutica e hospitalar, assim como plano de previdência e seguro, entre outras coisas. “O pedido foi feito tendo em vista que os servidores não estão sendo contemplados com todos seus direitos, nem o plano de carreira da categoria vem sendo respeitado, o que é uma verdadeira afronta por parte da administração municipal. Já que querem fazer exigências no cumprimento da jornada de oito horas, que deem o exemplo e cumpram, primeiro, o que determina a lei”, disparou a vereadora.

Uma reunião foi realizada no dia 9 de outubro, no prédio da Câmara Municipal, onde compareceram diversos servidores, dirigentes do Sempre e alguns vereadores. Na oportunidade o assunto foi debatido de forma geral, assim como tratados problemas isolados de cada setor. Chegou-se ao consenso de que será aguardado o início do cumprimento da nova jornada, em 1º de novembro, para que sejam decididos os próximos passos a serem tomados.

Fonte: Folha da Manhã