O Ventaniense

“Voz Interior” da escritora Conceição Lima recebe apreciação do Doutor Dimas Ferreira Lopes

Claudio Krauss
“Voz Interior” da escritora Conceição Lima recebe apreciação do Doutor Dimas Ferreira Lopes
Em virtude do lançamento da obra intitulada “Voz Interior”, na XV Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto, de autoria da célebre alpinopolense Doutora Conceição Lima, o seu não menos célebre conterrâneo Doutor Dimas Ferreira Lopes foi convidado a elaborar um artigo de apreciação deste fruto literário. Para quem ainda não conhece, Conceição Lima é, além de escritora, uma respeitada educadora com extenso curriculum acadêmico. Em primeira mão o leitor poderá conferir, neste espaço, um texto que sonda e exalta o teor da obra em questão. A seguir, confira na íntegra o rico conteúdo desta apreciação:

Por: Dimas Ferreira Lopes

A generosidade da autora, que me disse aguardar uma apreciação informal de minha lavra, é que me empolga a fazê-lo, e fazê-lo com certa audácia: aberta ao público, divulgando-a na Tribuna Alpina, quando antes deveria tê-lo encaminhado à autora, como recomenda a elegância acadêmica. Não o encaminhei. Também eu tivesse um pouco de siso, contentar-me-ia com a leitura – que realizei e de que muito me agradei – e confidencialmente a informaria de meu deleite, declinando-me de conceder à obra já publicada (e já ao agrado de leitores mais abalizados), minha desnecessária opinião.

A obra possui 145 páginas. O sumário evidencia que o PRÓLOGO, páginas 9-11, é uma apresentação intitulada Em busca da minha essência , qual, na verdade, não constitui um capítulo, mas uma apresentação, um verdadeiro PRÓLOGO-APRESENTAÇÃO.

A autora não foi egoísta por deixar de convidar terceiro para a apresentação de sua obra. E não se trata mesmo de nenhum egocentrismo, pois avaliou que assim deveria comportar-se devido à natureza da narrativa: um compósito de sabedoria identificada a partir do perscrutamento que fez para encontrá-la no seu interior secretíssimo, ou seja, na sua essência. Então, se a voz que do imo ecoa é a voz interior da autora (perdão pela força pleonástica), a ela, por obrigação, caberia unicamente informar os leitores sobre estes corredores ontológicos. E foi o que a Doutora Conceição fez. Palavras dela de que me aproprio sem aspas : Devo ultrapassar a barreira de meu EU PERIFÉRICO para encontrar o meu EU ESSENCIAL… o momento do encontro entre o ser humano e a sua verdadeira essência é sempre um INSTANTE SAGRADO… somente quando se experimenta o Eu essencial é que se pode trazer à luz a VOZ INTERIOR.

A autora Conceição Lima

Não se trata de um prólogo hermético, mas se se trata de um prólogo difícil; por isso a autora se viu obrigada, ela própria, a redigi-lo com beleza.  Nele ela se encontra – consciente ou inconscientemente – com o seu nome: Conceição, do latim conceptus , que quer dizer “concepção”, ela traz à luz o que gestou ao longo da sua madurês vital. Às vezes “muito dolorido”, como o evidencia o capítulo “Meu berço de espinhos” (páginas 54-55).  Por breve. Na obra, a autora expele a sabedoria de dentro de si, porque é isto – mais que qualquer coisa –  que pretende com este livro. Neste primoroso capítulo – o que mais me encantou – o vocábulo concepção foi empregado na terceira linha do terceiro parágrafo da página 55. E gostei que o parágrafo derradeiro se concluísse de forma interrogativa e exclamativa. Afinal, mesmo quando nos apropriamos de uma realidade, estamos sempre aprendendo e ressuscitando. Aqui jogo uma pitada de hermetismo, ou melhor, de mistério, já que mistério não é algo que se pode desvelar totalmente, pois é mais do que encobrimento, é inesgotabilidade. A autora tem plena ciência disto, pois se apoiará em Fernando Pessoa para louvar o gerúndio do verso “De tudo ficaram três coisas:  A certeza de que estamos sempre começando ”, o infinitivo do verso “A certeza que é preciso continuar ”, o particípio do verso  “A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar”.

O partejamento da sabedoria se dá numa estrutura de 40 capítulos. A obra não os enumera. Mas tive a curiosidade de contá-los a partir da página 12 (Cada qual e seu caminho) até o epilegômeno (Peço licença), fecho com o emprego da mesma estratégia do prólogo: o epílogo é também o último capítulo (página 138). Porém, no capitulo final, a autora ensina o que aprendeu com as balizas da sabedoria de Fernando Pessoa, Carl Jung e Jean Paul Sartre. Lidos e expressos, todos esses três sábios estariam a meu sentir em acordo com o sábio brasileiro Gonçalves Dias: “Viver é lutar”, citado na página 21, no capítulo “Vestido para lutar”. Mas a autora conseguiu me provocar algum desconforto na medida em  que   se contrapôs com o  “poeta nacional do Brasil”,  impelindo-me a uma reflexão incomodativa : viver é viver e lutar é lutar . Penso que a escritora, neste capítulo, deixa algumas inconsistências propositais, notadamente ao parafrasear Paulo Apóstolo (lutar o bom combate), acrescentando, por sua conta e risco, o estar armado para lutar o “mau combate”. As páginas 22 e 23 não devem ser eliminadas, devem ser lidas e relidas, exegetadas e comparadas. Parece também um libelo anticapitalista e uma louvação à bondade humana.

Para concluir, gostaria de estabelecer uma comparação. O livro, em minha contagem, possui 40 capítulos, número simbolicamente rico de significados. Tomando cada capítulo por dias ou anos, algumas associações podem ser estabelecidas.  A quaresma – período de quarenta dias – é um tempo litúrgico marcado por disciplinas penitenciais como jejuns, abstinências, mortificações que se aplicam para a purificação e crescimento espiritual dos fiéis. Durante quarenta anos o povo hebreu caminhou pelo deserto na confiança da Terra Prometida. Estar no deserto quaresmal ou do êxodo é estar cercado de tentações, da carência de alimentos e água, exposto a animais venenosos. Uma jornada cansativa. Mas a solidão desértica tem o poder de promover o adentramento ao mais íntimo em nós, de promover uma experimentação mística que leva à iluminação do conhecimento. Afinal, as linhas condutoras do enredo são luzes crescentes na sequência dos capítulos, o que a autora predicou  como “degrau acima do primeiro começo”( página 12),  uma ascese ao reconhecimento da “medida exata do que [somos] verdadeiramente” ( página 10), o autoconhecimento ( a radiografia que escancara o  autoconhecimento – página 19), o “verdadeiro dom que habita em nós” ( página 28).

                    Parabéns.

                   Alpinópolis, Minas Gerais, 30 de dezembro de 2015.

O alpinopolense Dimas Ferreira Lopes é Diácono Permanente da Igreja Católica na Arquidiocese de Belo Horizonte, nomeado integrante do CADIPE – Conselho Arquidiocesano para o Diaconado Permanente. Advogado e professor universitário leciona Sociologia Jurídica e Hermenêutica Jurídica no curso de Direito da FMD – Faculdade Mineira de Direito da PUC Minas – Belo Horizonte (campus Coração Eucarístico), indicado pelo Colegiado Didático para a Coordenação de Assuntos Estudantis, e eleito representante docente junto ao CEPE – Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão – órgão de deliberação superior da Universidade. Ensina Direito Canônico na Escola Diaconal São Lourenço da Arquidiocese de Belo Horizonte. Têm mestrado e doutorado, e, atualmente, cursa teologia.