João, o Sacristão da Ventania

Em 1967 foi comemorado o jubileu áureo de sacristania do senhor João Francisco dos Santos, que era conhecido popularmente em Alpinópolis como João Sacristão. Ele foi, além de um cidadão que marcou época na comunidade, o último a exercer a função de sacristão na Paróquia de São Sebastião. Um sacristão, segundo a Instrução Geral do Missal Romano, é aquele a quem compete a organização cuidadosa dos livros litúrgicos, das vestes e de outros objetos e tarefas necessárias à celebração da missa.

Durante mais de meio século, João Sacristão acordava a cidade às cinco da manhã, com o badalar dos sinos da Igreja Matriz, antecipando o Ângelus. Muitos pais e mães de família se reuniam para fazer orações até a hora da missa, que era diária.

Ele era constantemente convidado para levar seu harmônio portátil  (instrumento musical de teclas) para rezar novenas em casas dos fiéis, onde, por costume, sempre lhe retribuíam com café, quitandas ou almoços.

O Terço e as Ladainhas rezados por ele também eram diários e muito frequentados, principalmente pelas Filhas de Maria e quase toda a juventude que, após as orações, iam passear no jardim da praça – ou “dar voltas no quadro”, como era costume falar nessa época.

João Sacristão nasceu no dia 1º de novembro de 1896, em Alpinópolis, cidade onde também faleceu, aos 76 anos, em 1º de fevereiro de 1973. Com ele desapareceu na cidade a figura da sacristania tradicional. No bairro Rosário existe uma rua que, por justa homenagem, leva seu nome.

Como a modernidade exigia novos perfis na auxiliadoria sacerdotal, a competente Nair Ribeiro de Faria, a partir de 1951, passou, aos poucos, a desenvolver uma sacristania secretarial e ministerial catequética.

A educadora Darcy Teixeira dos Anjos Lemos, em edição do jornal Correio dos Alpes, do ano de 1987, escreveu sobre essa personalidade alpinopolense. Segundo tal texto, o antigo sineiro da Matriz, o João Sacristão, todos os dias, às cinco horas da manhã, abria a igreja, preparava o altar-mor para o santo sacrifício da missa, convocava os fiéis para as atividades religiosas fazendo vibrar fortemente os sinos de bronze enquanto mastigava deliciosamente a própria língua, num sestro que lhe era peculiar.

Outras vezes, a qualquer hora, fazia as pesadas campânulas dobrarem afinadas, festivamente para batizados, com sobriedade se para reuniões e catequese. Todos entendiam perfeitamente a linguagem que ele fazia ecoar.

À tarde rezava o terço a Nossa Senhora, a Ladainha, o Veni Creator Spiritus, cuja introdução se dava sempre com os mesmos acordes arrancados do pequenino harmônico que ele executava descontraído, como se fora talentoso artista, dedilhando prelúdios para o mais seleto público.

Ilustração de Darcy T. dos Anjos Lemos
-julho de 1987-

No Natal, além dos afazeres da sacristia, era o rei – Rei Perpétuo do Congo –, inigualável, alto, gordo, mulato, majestoso, alegre, de cetro, coroa e enorme capa vermelha de matizes pouco suaves espalhados por toda orla. Por si somente fazia valer o espetáculo religioso-folclórico nas congadas de Alpinópolis.

A linda coroa de pedras semipreciosas mancheadas em metal dourado, pertencente outrora ao Imperador das Festas do Divino, trazendo no centro a esfera a representar o mundo e a pomba o Espírito Santo a protege-lo, ele equilibrava com graça sobre a cabeça calva, ajudado pela vaidade que lhe diminuía o peso durante as caminhadas sofridas dos dias da Festa do Reinado.

E, orgulhoso, numa pompa incomparável, à frente do séquito e protegido pela guarda que lhe era leal, recebia de todos as mesmas honrarias, o amor, a obediência que se deve a um rei de fato. Embora tivesse jurisdição meramente simbólica, portava com garbo as insígnias reais e decretava a paz pelo exercício da fé. E os súditos reconheciam piedosos a sua realeza, pelo menos enquanto duravam as festas da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário.

Todavia o tempo, insensível, levou-o para o reino dos espíritos conhecido somente pelos olhos da fé. Foi-se o sineiro, o sacristão, o tecladista, o cantor de músicas sacras, o rezador das procissões, o devoto, o cidadão, o rei… Mas a sua alma ficou entre o povo, resguardada pela saudade indelével que ganhou enorme espaço nos corações do povo de Alpinópolis.

Referências Bibliográficas: 

LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

LEMOS, Darcy Teixeira dos Anjos. João Sacristão. Correio dos Alpes, Alpinópolis, ano I, n.16, 25 julho 1987.

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