Escritores lançam livro sobre tradições e devoção em Alpinópolis

capa_ventania_tradição_devoçãoA memória é um dos alicerces que dá sentido à vida. “Ventania (MG): Tradição & Devoção” é uma obra que apresenta ao público um estudo aprofundado sobre o aspecto histórico e traz uma rica abordagem poética de tradições seculares de Alpinópolis. Apesar do enfoque predominantemente cultural, a obra não foge de sua natureza baseada em rituais católicos, por aqui praticados há mais de 130 anos.

Os alpinopolenses Dimas Lopes e Conceição Lima, ambos doutores em suas respectivas áreas de atuação, evidenciam, cada um a seu modo, a devoção religiosa e o apreço cultural à tradição presente nestas terras, desde os idos tempos de arraial de São Sebastião da Ventania.

O foco da obra recai sobre duas destas tradições: o cântico da Verônica, durante a procissão do enterro na Semana Santa e o mártir São Sebastião. Em primorosa apresentação elaborada para o livro, Valdete Santos Ribeiro chama a atenção do leitor, primeiramente, para a qualificação dos autores. Dimas Lopes é adjetivado como aquele homem que, “se houvesse mais alguns como ele, nossa história seria preservada como merece”. Já Conceição Lima ganha, merecidamente, a deferência da professora que a coloca como “uma inspiradora de seus mais prosaicos atos e mais altos ideais”. Na sequencia é feita uma abordagem dirigida aos dois assuntos sob a ótica de cada um dos escritores. Sobre a Verônica é ressaltada a profundidade com que o costume é descrito e, em especial, à análise perfeita do ponto de vista linguístico na questão do canto lamentoso desta misteriosa personagem que ainda conta com o responsório característico das Marias Beús. Na abordagem dirigida a São Sebastião fica evidenciada a identificação do povo alpinopolense com essa figura que acaba por se misturar com a própria história da cidade. Alguns pontos merecem destaque nessa observação, sendo um deles a abundante representação do mártir por artistas reconhecidos e também a excelente explicação apresentada sobre a composição dos vitrais presentes nas paredes da Igreja Matriz de Alpinópolis que, segundo a professora, desperta no leitor a vontade de pegar o livro e ir até o local conferir a descrição.

AS VERÔNICAS E BEÚS ALPINOPOLENSES

Uma referência importante presente na obra, e trazida aqui quase na íntegra do texto original, é sobre a identidade de algumas mulheres alpinopolenses que representaram as Verônicas e as Beús nestes fartos anos de tradição.

O canto da Verônica em Alpinópolis, no passado e presente, nunca se afastou de ser exibido tradicionalmente em solo. O coro das Beús, geralmente composto por um trio de vozes, uma referência às três Marias presentes na crucificação, em Alpinópolis excedia a tradição de três participantes.

Na cidade, sem distinção entre falecidas e vivas, Verônicas e Beús, por ordem de estreia ou de permanência, atuaram e atuam devotamente: América Kraüss (Meca do Zezeca), Negrinha do João Barqueiro, Tonha do Zé Miguelinho, Maria do Tiãozinho Cardoso, Sulica do Zé Gabriel, Anita da Dona Basília, Maria José do Zé Barba, Aparecida Pereirinha, Dorvalina, Gasparina Reis (Fia), Dona Rola, Lucinha, Dona Luzia (da Prata), Luzia do Noé (filha do Bastião Braz), Luzia do Antônio Custódio, Cida Ferreira, as irmãs Cida e Naninha, Cristina do Geraldo, Graça Kraüss, Márcia Kraüss, Mercedes Kraüss, Edília do Tião, Carminha Ribeiro, Selma Ribeiro, Edna Ribeiro, Vânia Ribeiro e Ângela Ribeiro.

Antes da procissão do enterro, quando acontece a mística cantoria, existe a ritualística retirada da imagem do Cristo fixada ao altar da igreja. Essa cerimônia é realizada por quatro homens (representando Nicodemos e José de Arimatéria) que se apresentam vestidos de túnicas com gorrões (capuzes) brancos, tendo as cinturas cingidas por cordões brancos. Antes do traslado e colocação no esquife, a imagem é direcionada a uma jovem que representa Maria, a mãe de Jesus morto. Alguns dos homens que encenam os chamados “José de Arimatéia”, também sem distinção de vivos e falecidos, são: João Gustavo, José Gustavo, Joaquim Gustavo e seu filho José (da Maria Borges), Neném Gustavo, Dionésio, Noé Firmino, Benedito Cesário, Geraldo de Paula, Renato do Lázaro da Ifigênia, Josué Ribeiro e Nego Braga. Já o papel da mulheres que representam Maria, tem sido exercido por variadas pessoas, não podendo ser atribuído a um rol tradicional, estando entre elas: Rose (filha da Valdete), Ana Augusta (filha da Marília) e Ana Cláudia (filha da Neiva).

DE ESCRITORA PARA ESCRITORES

O jornal Folha da Manhã, edição de sábado (07), trouxe na coluna “Dia a Dia” um comentário, da consagrada escritora Hilda Mendonça, sobre a obra. Hilda, em uma apreciação mais detalhada, assim referenciou a obra “Ventania (MG): Tradição e Devoção”.

“Com este título, os professores Dimas Ferreira Lopes e Conceição Lima, registraram em livro uma pesquisa, no mínimo curiosa, sobre uma tradição que Alpinópolis ainda preserva. Interessante é que esses dois alpinopolenses, doutores em suas áreas de atuação, optaram pelo nome VENTANIA, que eu costumo dizer, Alpinópolis é oficial, ‘Ventania é para os íntimos’. Vejo aqui em Passos que é assim, quase uma irmã siamesa, dificilmente alguém diz: – Vou a Alpinópolis, é sempre; vou à Ventania, fica perto da Ventania e vai por aí.

Quero crer que os dois autores optaram por Ventania em lugar de Alpinópolis por se tratar de pesquisa de uma das mais antigas tradições religiosas da cidade e até hoje conservadas. Dimas e Conceição acabam de lançar o livro intitulado ‘Ventania (MG): Tradição & Devoção, um Enfoque Cultural’.

Vamos ao “lei motive” deste Ventania(MG). Os autores fizeram uma pesquisa séria e profunda sobre a tradição do Canto da Verônica na procissão da sexta-feira da Paixão, acompanhado do Coro das Beús, nome que andava perdido nos porões de minha memória e que de repente me aparece com as procissões, eu criança, segurando na mão de minha mãe, acompanhando a procissão do Enterro como a chamávamos, com minhas perninhas curtas, torcendo pelo canto da Verônica, que eu não entendia nada mas sabia-o de cor e depois o coro das Beús, momento em que aproveitava para me assentar na calçada e descansar.

O livro traz na capa a bela igreja Matriz de Alpinópolis, Ventania (igreja em que fui batizada e fiz a primeira comunhão) pesquisa com notas de rodapé, e curioso, em alguns documentos consta que foram encontrados na Estação Cultura de Passos, estação esta que tem recebido mais atenção ultimamente e que guarda acervos tão valiosos.

E para enriquecimento do livro há ainda um interessante relato sobre a vida do Mártir São Sebastião, Padroeiro de Alpinópolis. Vale ressaltar o cuidado que os autores Dimas e Conceição tiveram com a pesquisa, seguindo todos os parâmetros como deveria ser, citações, notas e Bibliografia. De parabéns Alpinópolis, Ventania para os íntimos por este gesto de amor e dedicação de seus filhos em registrar para os estudiosos suas tradições, que não se perderam nos encalços do tempo, trabalho de fôlego desses dois ilustres alpinopolenses, ou ventanienses, Dimas Ferreira Lopes e Conceição Lima.”

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