Uma sondagem realizada entre os anos de 2014 e 2017 indicou a existência de uma mistura contendo cinco diferentes agrotóxicos na água que chega à estação de tratamento da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), empresa responsável pelo abastecimento hídrico em Alpinópolis. No entanto, apesar da presença verificada dos pesticidas, nenhum dos detectados estaria acima dos limites definidos pela legislação brasileira.
Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil, Agência Pública e a organização suíça Public Eye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento.
Dos cinco agrotóxicos encontrados na água que abastece Alpinópolis, três são associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos, sendo eles: Alaclor, DDT+DDD+DDE, e Lindano. Os outros dois detectados são o Aldrin e o Endossulfan.
Foram feitos, em todo o território nacional, 854.140 testes entre 2014 e 2017. Segundo o levantamento, uma em cada quatro cidades do Brasil apresentou contaminação. Ao todo, 83 municípios de Minas Gerais acusaram a presença de químicos na análise da água e, no Sul de Minas, o número de localidades chegou a 45.
Na região, além de Alpinópolis, aparecem na lista outros oito municípios. Passos e São João Batista do Glória são os casos mais preocupantes, apontando um total de 27 pesticidas na água. Em seguida vem Alpinópolis com cinco agrotóxicos; Capetinga e São Pedro da União, com três substâncias cada; Carmo do Rio Claro, Cássia, Conceição Aparecida e São Sebastião do Paraíso, com apenas um químico detectado.
Analisando a questão sob a ótica da lei brasileira, o problema acaba sendo minimizado e considerado pequeno, já que apenas 0,3% de todos os casos constatados no País, durante o período do estudo, ultrapassaram o nível considerado seguro para cada substância. Isso porque o Brasil não tem um limite fixado para regular a mistura de substâncias. No caso específico de Alpinópolis, apesar dos índices encontrados estarem dentro do quantitativo legal, seria prudente levar em conta essa questão da presença de cinco diferentes agrotóxicos na água, já que especialistas afirmam que há perigo de que essa combinação possa multiplicar ou até mesmo gerar novos efeitos nocivos.
Essas reações já foram demonstradas em testes, segundo disse Cassiana Montagner, professora e pesquisadora do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Mesmo que um agrotóxico sozinho não tenha efeito sobre a saúde humana, ele pode ter quando se combina com outra substância”, afirma. Já a médica toxicologista Virgínia Dapper, esclarece que “os agentes químicos são avaliados isoladamente, em laboratório, e ignoram os efeitos das misturas que ocorrem na vida real”. De acordo com ela, as pessoas que já estão desenvolvendo doenças em decorrência dessa múltipla contaminação provavelmente nunca saberão a origem de suas enfermidades.
RESPONSABILIDADE
Questionado, o Ministério da Saúde declarou, em nota, que os dados não estão consolidados e que, portanto, não é possível, “no momento, fazer avaliação sobre a situação da qualidade da água”. A nota ministerial diz ainda que a “exposição aos agrotóxicos é um problema de saúde pública e cada situação deve ser analisada individualmente à luz do histórico de dados e dos valores de referência da legislação. Quando encontrados valores acima do padrão de potabilidade ou até mesmo diante da presença constante das substâncias, a vigilância deve notificar os prestadores de serviços de abastecimento de água”.
A Copasa informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a água distribuída em Alpinópolis atende a todos os padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Afirmou, ainda, que a companhia realiza o monitoramento constante na água captada e distribuída nas cidades atendidas pela empresa no Estado.
Já o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), que representa os produtores de agrotóxicos, defendeu a segurança dos pesticidas. Em nota, a entidade afirmou que a avaliação feita pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura garante que os produtos são seguros ao trabalhador, população rural e ao meio ambiente “sempre que utilizados de acordo com as recomendações técnicas aprovadas e indicadas em suas embalagens”.
