O Cemitério de Alpinópolis encontra-se em funcionamento desde 1919 e conta, atualmente, com mais de dois mil túmulos distribuídos em um território com cerca de 15 mil m², situado na divisa entre os bairros São Benedito e Mundo Novo. Naturalmente, devido a diversos fatores, a quantidade de espaço para construção de novos túmulos já é quase inexistente, o que representa um desafio para o poder público, que precisa lidar com essa questão da saturação do local e planejar soluções para garantir a continuidade do serviço funerário no município.

Imagem: Google Earth
ANTIGO CEMITÉRIO
A área, localizada na altura do número 194 da Avenida Saudade – logradouro que ganhou esse nome justamente por dar endereço ao Cemitério –, passou a ser utilizada logo que o antigo lugar de sepultamentos foi desativado. O campo santo anterior, que ficava onde atualmente se encontra a Praça Doutor José de Carvalho de Faria, conhecida popularmente como Praça do Rosário, foi o primeiro cemitério do então arraial de São Sebastião da Ventania. Tinha o portão principal voltado para onde hoje está o fórum da Comarca – em frente a uma grande cruz de madeira – e, ao fundo, havia uma capela de São Miguel. Inaugurado em 1825, este primitivo sepulcrário serviu à comunidade alpinopolense por mais de nove décadas. Após sua desativação definitiva, parte dos ali enterrados tiveram seus restos mortais transferidos para o novo cemitério. Os demais, ainda descansam no mesmo lugar.

PRIMEIRO SEPULTAMENTO
O primeiro sepultamento realizado no cemitério atual ocorreu em meio a um dos capítulos mais tristes da história da cidade, quando a gripe espanhola ceifou a vida de grande número de alpinopolenses. Foram 158 falecimentos no período entre 1917 e 1919, no entanto a quantidade deve ser ainda maior, já que esse número corresponde apenas aos registros do cartório civil. O primeiro corpo a ser enterrado no local, segundo o livro de óbitos da Paróquia de São Sebastião, pertencia a uma menina, de 13 anos, vítima da gripe. O sepultamento aconteceu no dia 16 de janeiro de 1919, ano em que morreram na cidade 105 pessoas – a maioria crianças com menos de 10 anos de idade – em decorrência da referida enfermidade.

A inauguração oficial, contudo, somente se deu no dia 2 de novembro daquele ano, possivelmente para coincidir com a data em que se homenageia, conforme as tradições católicas, a lembrança dos fiéis defuntos (Dia de Finados). Apesar da Constituição da República de 1891, vigente neste período, já atribuir aos cemitérios brasileiros caráter secular, devendo ser, portanto, administrados pelas autoridades municipais, os únicos registros encontrados sobre atividades realizadas no local foram feitos pela Paróquia de São Sebastião. Porém, as anotações assinaladas pelo pároco da época, o Cônego Vicente Bianchi, cessam no início da década de 50.

MODIFICAÇÕES
O Cemitério de Alpinópolis, devido ao crescimento do município, passou por algumas modificações durante esses 106 anos. A primeira delas aconteceu na década de 1940, quando houve a primeira ampliação e foi construído o pórtico de entrada, o qual permanece, até os dias de hoje, com a arquitetura original preservada.
Na década de 1950, o cemitério foi ampliado pela segunda vez, por iniciativa do Padre Ubirajara Cabral, que recentemente havia chegado a Alpinópolis. No ano de 1994 ocorreu a terceira expansão, dando ao espaço cemiterial as suas dimensões atuais.

Em 1995, devido ao mau estado de conservação do pórtico de entrada, a edificação foi restaurada com cuidado para resguardar a integridade original. As obras se limitaram à parte estrutural, garantindo que o estilo arquitetônico fosse respeitosamente preservado, sem comprometer sua autenticidade histórica.
Em 2006, com as exigências legais por acessibilidade, foi feita uma intervenção na entrada, quando foi substituída uma antiga escadaria por uma rampa, visando facilitar acesso a todos. No mesmo ano foi realizado um deslocamento de um dos muros laterais (da direita, para quem está de frente para o Cemitério), o que permitiu aproveitar um espaço, no qual seria construído um velório, para a implantação de mais túmulos.
Recentemente, o Cemitério passou por novas intervenções, incluindo asfaltamento em CBUQ nas principais ruas que ligam as seis quadras do local, instalação de iluminação mais adequada, interiorização e reforma do banheiro (que antes ficava na parte externa) e melhoramento no sistema de distribuição de água.

O PÓRTICO
O pórtico do Cemitério de Alpinópolis pode ser enquadrado no estilo arquitetônico Neoclassicismo Moderno, com influências Art Déco. Construído em 1946, ele apresenta uma composição rigorosamente simétrica que expressa conceitos de ordem, permanência e transcendência. Sustentada por uma plataforma elevada a estrutura articula-se em elementos claramente definidos.
A composição vertical é dominada por um frontão triangular de acentuado relevo, que centraliza uma cruz em proeminência como motivo simbólico axial, flanqueada por linhas paralelas retas contendo losangos irregulares em seu interior, ornamentação caracteristicamente Art Déco, típica da produção arquitetônica da época. O frontão apresenta uma cornija de arremate superior, estabelecendo a transição entre a zona monumental e o corpo da fachada.
No registro intermediário, desenvolve-se um entablamento bem proporcionado que integra representações em alto relevo de duas pequenas janelas e quatro colunas simétricas, em estilo grego, com detalhes ornamentais em seus capitéis e bases, executadas como elementos decorativos sobre a superfície. Por fim, duas outras colunas, em formato distinto das demais, ladeiam elegantemente o portão de ferro central, que serve como entrada principal para o Cemitério.

Essa escolha estilística do então pároco, Cônego Vicente Bianchi, é absolutamente apropriada para uma edificação cemiterial, refletindo a linguagem arquitetônica consagrada em monumentos públicos do Brasil entre as décadas de 1930 e 1950, quando o neoclassicismo moderno representava alguns conceitos, entre os quais, a transcendência espiritual, fundamental no contexto fúnebre do pórtico.
ADMINISTRAÇÃO
A legislação municipal versa sobre as responsabilidades que tem o poder público local em áreas destinadas a sepultamentos. O artigo 16, inciso XXIX, da Lei Orgânica de Alpinópolis diz que, à Prefeitura compete, privativamente, administrar os serviços funerários e de cemitérios, assim como fiscalizar os que pertencerem às entidades privadas. Já a Lei Complementar 140/2018 (dispõe sobre parcelamento, uso do solo e edificações) diz, em seu artigo 32, inciso XIII, que espaços como cemitérios e necrotérios são classificados como de uso especial, por serem causadores de impactos ao meio ambiente urbano, e sua implantação deverá ser objeto de projeto e licenciamento específicos, aprovados pelos órgãos competentes.

O Cemitério de Alpinópolis é dividido em seis quadras e abriga cerca de dois mil lotes em toda sua extensão. O local é atendido por servidores públicos municipais e apresenta um sistema de cobrança para as cessões e serviços ali executados. Por exemplo, o valor para construção de gaveta é de R$ 1.399,46, enquanto para a cessão perpétua de gaveta é de R$ 1.749,58. Já para a abertura e sepultamento a tarifa é de R$ 396,56 e para transferência de R$ 466,55.
ESCRITURA
Outro ponto relevante é a situação fundiária do Cemitério. Até pouco tempo, o quarteirão inteiro utilizado para os sepultamentos há mais de 100 anos, não possuía matrícula registrada em cartório, ou seja, não tinha escritura formalmente reconhecida. Até a década de 1950, constava no livro do tombo da Paróquia de São Sebastião a denominação do espaço como Cemitério Paroquial, indicando, em tese, que pertenceria à paróquia. Posteriormente, o local passou a ser considerado Cemitério Municipal, mesmo sem que houvesse escritura registrada. Essa indefinição impedia a realização de reformas e ampliações com segurança jurídica. A situação foi finalmente regularizada em 2025, com o devido registro em cartório, garantindo a titularidade do terreno e possibilitando a gestão adequada e planejada da área.
CAPELA DE SÃO MIGUEL
A exemplo do antigo Cemitério, o atual também conta com uma pequena capela de São Miguel, situada na própria edificação do pórtico de entrada, à direita de quem entra. São Miguel, o arcanjo de Deus na batalha contra Lúcifer e os anjos rebeldes, é o primeiro anjo honrado pelos fiéis católicos, reconhecido como “príncipe da milícia celeste”.
A ele, segundo as tradições católicas, compete três funções, sendo a primeira guiar as almas para o céu, depois de tê-las pesado na balança da justiça divina; a segunda, defender a Igreja e o povo cristão; e a terceira, presidir no céu o culto de adoração a Santíssima Trindade.
A imagem do arcanjo, presente na capela, é esculpida em gesso e madeira policromada e encontra-se em cima de um modesto altar. Apesar da simplicidade, o local conta com muita representatividade religiosa para os fiéis que ali frequentam.

CENTENÁRIO
No amplo terreno que abrange o cemitério existem túmulos centenários e jazigos que abrigam os restos mortais das muitas famílias que compõem a sociedade alpinopolense, incluindo importantes personalidades da história da cidade.

Bem na entrada, também do lado direito, quase rente ao velho muro de pedras que cerca o campo santo, há duas antigas cruzes fincadas – uma talhada em pedra e outra em madeira – e um velário, sobre o qual repousa uma imagem da Padroeira do Brasil, onde muitos fiéis ainda mantêm o costume de acender velas e rezar pelas almas dos falecidos.

CRIANÇAS ANJINHAS
No Cemitério de Alpinópolis, era comum, antigamente, que as crianças fossem sepultadas isoladamente em pequenos túmulos, simples e discretos, que se diferenciavam dos demais pela menor dimensão. Ao contrário do que se observa em outras localidades, esses jazigos raramente trazem adornos como brinquedos, imagens ou enfeites coloridos, apresentando, quando muito, apenas o nome e as datas de nascimento e falecimento dos pequenos, geralmente de épocas mais remotas. Com o passar do tempo, essa prática se modificou, e hoje as crianças são sepultadas em túmulos de tamanho normal, geralmente pertencentes às próprias famílias, permanecendo, ainda assim, o simbolismo e a ternura associados às chamadas “crianças anjinhas”, cuja lembrança segue viva na memória da comunidade alpinopolense.

ESPAÇO ESCASSO
Atualmente, o Cemitério de Alpinópolis encontra-se próximo de sua capacidade máxima, o que exige providências basilares e urgentes do poder público. Nos últimos quatro anos, a Prefeitura chegou a anunciar possíveis reformas estruturais, como a possibilidade de ampliação da área frontal — onde estão o estacionamento e o pórtico — ou a redução das ruas paralelas ao cemitério, vias públicas que circundam o espaço, com o objetivo de aumentar a área disponível. No entanto, nenhuma delas foi efetivamente executada até agora. Embora algumas intervenções paliativas tenham sido realizadas, como a construção de túmulos verticais com múltiplas gavetas, essas ações não foram suficientes para atender à demanda crescente e o problema permanece.
Entre as medidas pensadas para lidar com a escassez de espaço, a Prefeitura publicou dois editais convocando os responsáveis por cerca de 370 antigos jazigos e sepulturas que estavam sem manutenção ou identificação adequada. O objetivo era permitir que esses túmulos fossem devidamente regularizados e, se necessário, destinados a novos sepultamentos, contribuindo para sanar parcialmente o problema. Apesar do prazo concedido e do alerta de que as sepulturas poderiam ser reaproveitadas, a maioria dos familiares não apresentou a documentação necessária. Mesmo assim, por razões ainda não informadas, a Prefeitura não deu continuidade a essa alternativa, mantendo tais túmulos nas mesmas condições, pelo menos até o momento.
Referências Bibliográficas:
LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.
SOUZA, Juliano Pereira de. Caminhando pela História: um passeio pelas ruas / Juliano Pereira de Souza. – Juiz de Fora, MG: Editora Garcia, 2021.
