Cadeia resolve o problema?

EXECUÇÃO PENAL NO BRASIL E A CULTURA DO REGIME DE GRADES
 
Por Ana Clara Cabral

A onda de criminalidade cresce de forma assustadora no Brasil. O país, na tentativa de dar uma resposta à sociedade, tem criado leis cada vez mais severas com a imposição, cada vez mais freqüente, do regime de grades como resposta em face do clamor social e exigências midiáticas.

Cadeia Pública de Alpinópolis durante uma das rebeliões ocorridas. Foto: Alex Cavalcanti
Cadeia Pública de Alpinópolis durante uma das rebeliões ocorridas.
Foto: Alex Cavalcante

O diploma legal que regulamenta a Execução Penal no Brasil é a Lei 7.210/84, considerada, em abstrato, um exemplo de legalidade e instrumento de ressocialização. Ocorre que entre o mundo jurídico, que envolve a referida lei e o mundo fático, há uma distância considerável, o que transforma a Lei de Execução Penal em letra morta. Há um verdadeiro choque entre a vontade do legislador e a realidade do país, notadamente no que toca à realidade carcerária.

É triste concluirmos tal fato após trinta anos da entrada em vigor da Lei 7.210/84 no país. Não há nenhuma perspectiva de mudanças nesse aspecto, eis que nada tem sido feito no sentido de recuperar e ressocializar. O setor carcerário necessita de políticas públicas que viabilizem a correta aplicação da lei, bem como todo o ordenamento jurídico penal brasileiro também necessita. Por outro lado, se todos os segmentos da sociedade estão padecendo, impossível termos um sistema carcerário perfeito, como sonhou o legislador de 1984.

Não há vontade política em investir na educação, na saúde, nas crianças e nos adolescentes. O que se tem notado é uma crescente preocupação em se criar mecanismos que beneficiem uma determinada classe de pessoas. É preciso buscar a cura dos males em suas raízes e abandonarmos a falsa ideia de que o cárcere, por si só, resolve o problema.

EXERCÍCIO EM CENA Projeto social encerrado pela Prefeitura de Alpinópolis em 2013
EXERCÍCIO EM CENA
Projeto social encerrado pela Prefeitura de Alpinópolis em 2013

Não podemos esquecer que todos nós fazemos parte de uma mesma sociedade, sejamos delinquentes ou não. Isso implica dizer que se a sociedade está “doente”, todos nós também estamos. Não podemos ignorar e isolar o problema através de um portão que separa a comunidade carcerária da nossa. A cura tem que ser uma preocupação de todos nós, sob pena de continuarmos todos “doentes”.

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Dra. Ana Clara Cabral
Professora de Direito Penal e Processo Penal
Universidade Federal de Rondônia

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