Antigo cemitério de Alpinópolis – 1825

O cemitério que hoje serve à comunidade alpinopolense, situado na altura do número 194 da Avenida Saudade —logradouro que ganhou esse nome justamente por dar endereço a este local de sepultamentos—, passou a ser utilizado somente em 1919. Antes, e por mais de nove décadas, os falecidos do antigo arraial eram enterrados onde atualmente está a Praça Doutor José de Carvalho de Faria, ou Praça do Rosário, como é mais conhecida.

O velho cemitério foi inaugurado em 1825 e foi o primeiro campo santo de São Sebastião da Ventania. O historiador José Iglair Lopes, em sua pesquisa, explica que antes disso o arraial não contava com cemitério e os mortos eram depositados ao lado das capelas e, em casos especiais, dentro delas.

Como o povoado crescia —nessa época já contava com aproximadamente 1500 habitantes, entre livres e cativos (escravos)— o senhor Domingos F. Carvalho e o Padre Amador de Barros Mello, responsável pela paróquia local entre os anos de 1824 e 1841, assinaram uma petição solicitando das autoridades permissão para separar uma área destinada a ser o primeiro cemitério da Ventania.

Com a licença devidamente concedida a área foi cercada de muros e, em 1826, já se benzia o cemitério, fato que não impediu que algumas pessoas de destaque ainda continuassem sendo sepultadas dentro das igrejas do arraial. José Iglair conta que, na velha Matriz de São Sebastião, havia alguns cravos de cobre pregados no assoalho de tábuas com as iniciais de defuntos. As letras I.V.R., por exemplo, identificavam a sepultura do capitão Izac Vilela dos Reis (filho caçula de Dona Indá), ali depositado em cerimônia solene no ano de 1884. Já M.U.S. eram as iniciais de Maria Umbelina de Souza, primeira esposa de Antônio Gonçalves de Morais Júnior. Essas lápides ficavam à direita de quem entra na Matriz (de hoje), no espaço compreendido entre a porta que dá acesso ao coro e torre até a porta de saída lateral. O corpo de Pio Nato Brasileiro, falecido em 1865, foi sepultado na igreja velha do Rosário, onde atualmente fica a casa de Leonaldo Cândido da Silveira, o Léo do Posto.

O termo de abertura do primeiro livro de óbitos da Paróquia de São Sebastião foi lavrado em 17 de dezembro de 1825, data possível do primeiro sepultamento ocorrido no cemitério velho. A benção do campo santo, contudo, se deu somente no dia 22 de março do ano seguinte, conforme registro feito pelo Padre Fernando Lopes de Camargo, escrivão adjunto da Câmara Capitular de São Paulo.

O primitivo cemitério era cercado por um muro de pedras, contava com uma capela de São Miguel em sua parte posterior e tinha o portão principal voltado para onde hoje fica o fórum da comarca, bem em frente a uma grande cruz. Segundo narra a tradição, foi lançada neste madeiro —talvez por um pássaro— uma semente de figueira silvestre que cresceu e se transformou em uma frondosa árvore que se abraçou à cruz. Este fenômeno era visto, principalmente por religiosos, como sendo um símbolo da fé unida ao amor à vida.

Há até poucos anos, tal árvore-cruz ainda podia ser apreciada neste local, porém acabou sendo dali retirada por já estar apodrecida. A foto que ilustra esta matéria —gentilmente cedida pelo militar e pesquisador Juliano Pereira de Souza— é, possivelmente, a única imagem que existe do antigo cemitério de Alpinópolis. Nela podem ser vistos, claramente, o portão e o muro de pedras ao fundo, assim como a árvore-cruz no primeiro plano. Não há registro, porém, sobre a identidade dos dois jovens que aparecem no retrato.

Não se sabe, exatamente, quem foi a primeira pessoa a ser enterrada no antigo cemitério. No entanto, a última está devidamente registrada pelo padre Vicente Bianchi no XIII livro de óbitos da paróquia. Trata-se de uma menina, de cinco anos de idade, da família Brasileiro, tradicional estirpe alpinopolense, sepultada em 16 de janeiro de 1919. A garotinha Aparecida Figueiredo Franklin (filha de José Franklin Pinto e Amélia Jovina Figueiredo – no livro de óbitos consta o sobrenome Brasileiro ao invés de Figueiredo) nasceu em 1914 e faleceu em 1919, vítima da gripe espanhola, epidemia que matou cerca de 158 pessoas em Alpinópolis.

POLÊMICA

O último episódio relevante envolvendo esse campo santo se deu em 1976, quando o então prefeito Antônio José de Freitas resolveu construir, naquele espaço, uma praça pública, ao redor da Igreja do Rosário.  Tal decisão foi muito mal recebida pelo Padre Ubirajara Cabral, pároco na época, que a considerou um sacrilégio, visto que o largo era um terreno bento e ainda abrigava os ossos da maioria dos que ali foram enterrados, já que poucos corpos foram transferidos para o outro cemitério.

Largo do Rosário antes das obras
-1974-

Na ocasião, o religioso chegou a dizer que o prefeito havia abusado de sua autoridade e violado os túmulos do antigo cemitério paroquial. Em sinal de reprovação, o padre suspendeu todo e qualquer ato litúrgico naquela igreja e arredores. Acreditava-se, segundo ditos populares, que o jardim lá plantado, por muito tempo, não floresceu justamente por esse motivo.

Por outro lado, havia também os que defendiam a iniciativa de Antônio de Freitas, um prefeito considerado, até os dias de hoje, como um dos melhores gestores que Alpinópolis já teve. Muitos consideravam a construção, da que veio a se chamar primeiramente Praça Marechal Deodoro, como uma expansão urbanística imprescindível, visto que a cidade aumentava e via crescer a demanda por espaços públicos de qualidade. Há até quem diga que, ao contrário do alegado pelo Padre Ubirajara, o prefeito, na verdade, havia dado —com tão bela construção— uma grande e digna sepultura aos restos mortais dos que ali permaneceram.

Referência Bibliográfica: LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

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