Ventania em outros carnavais

Pode ser que esse artigo tome contornos de papo de ventaniense saudosista, mas, no fundo, é exatamente isso. O saudosismo de uma cidade que conheceu um Carnaval com verdadeiras características de manifestação cultural de seu povo. Carnaval de Alpinópolis tem história. Interrompida, mas tem.

Pelos anos que marcavam, mais ou menos, a metade do século passado, os festejos carnavalescos eram realizados nas casas mais espaçosas de famílias alpinopolenses, onde nossa gente se divertia ao som de marchinhas e era entusiasmada pelo lança-perfume, permitido pela legislação da época. Nos anos 70, a folia tinha palco na União Recreativa e Comercial de Alpinópolis – URCA, local hoje ocupado pelo prédio do Ki Barato, na Praça Osvaldo Américo dos Reis. Logo, Alpinópolis entrou em um período que duraria 11 anos, o qual pode ser chamado de “a era de ouro do Carnaval alpinopolense”. Foi quando tivemos o privilégio de ver o surgimento e evolução de nossas escolas de samba.

Porta-bandeira e Mestre-sala
‘Vem Quem Qué’ – 1986

Nas décadas de 80 e 90 as escolas desfilaram absolutas pela Governador Valadares. Os camarotes eram os alpendres das casas e o povo assistia em pé ao longo da avenida. O Carnaval de rua alpinopolense nem existia. Era da avenida diretamente ao Clube Serra Verde e, posteriormente, ao Pedra Branca. Blocos invadiam esses locais contagiando e enchendo o povo de alegria. Ventania teve, além de suntuosos desfiles, um dos melhores carnavais de salão de toda a região.

Tonha Monzica
‘Unidos de Ventania’ – 1988

AS ESCOLAS DE SAMBA

VEM QUEM QUÉ – Foi fundada como bloco em 1985 pela turma da Betânia Faria, vindo a se transformar em escola de samba em 1986, quando houve o desfile inaugural. A partir daí, a organização ficou por conta da turma da VACA. Esse foi um marco na história cultural da cidade, pois naquela oportunidade Alpinópolis via, pela primeira vez, um desfile de escola de samba ser encenado em  suas ruas.

Turma da VACA – Carnaval de 86

O mais célebre compositor da escola foi o médico Marco Antônio Soares Reis, o Marco Antônio do Lanito, autor de sambas enredo dignos de serem entoados por grandes escolas de qualquer lugar do país. O mais marcante deles foi feito para o desfile de 1986, que homenageava Anna Theodora de Figueiredo, a Dona Indá, no qual era cantado o seguinte trecho:

“Correntes arrastadas pelo chão / pedra a pedra levantaram muralhas / com suor cercaram nosso chão / serra a serra surgiu a nossa terra”

Segundo relatou Adolfo Vilela, o Dorfo, esse foi um período emblemático para a cidade, quando planos saíram do papel e foi concretizado o sonho de botar uma escola de samba completa na avenida. “Chego a dizer que essa foi uma época de ouro da Ventania. Nós acreditávamos de verdade naquele sonho e o concretizamos. Foi tudo muito trabalhoso, exigiu muito de cada um dos membros da escola, mas foi maravilhoso. A casa da Cleire Faria era praticamente o barracão da Vem Quem Qué e ali nos reuníamos por mais de dois meses para preparar tudo para os desfiles. Era uma alegria total”, declarou.

UNIDOS DE VENTANIA – A exemplo da Vem Quem Qué, a Unidos de Ventania também começou como um bloco, desfilando na Praça da Matriz em 1987. Já no ano seguinte, se elevou ao status de escola de samba, passando a se chamar Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Ventania, e foi desfilar na avenida. No Carnaval de 88, colocou na rua mais de 430 foliões e fez um desfile deslumbrante que agradou a gregos e troianos. Houve muita determinação por parte de um grupo de pessoas compromissadas que decidiram ir atrás de seu objetivo. Foi formada uma comissão e os membros não mediram esforços para concretizar o sonho de colocar a Unidos de Ventania na passarela. Em fevereiro de 1988 o sonho estava realizado e a escola desfilou apoteótica pela Governador Valadares.  Com a entrada da Unidos, passou a existir na cidade uma saudável rivalidade entre as duas escolas.

Ala das Baianas
‘Unidos de Ventania’ – 1988

Um samba enredo da escola que ficou imortalizado, levou para a avenida os inesquecíveis versos cantados na voz marcante do puxador Messias Peru:

“Quero ver a noite  se encontrar com o dia / casar o sol com a lua / no amanhecer da Ventania”

Bateria
‘Unidos de Ventania’ – 1988

A Unidos de Ventania desfilou sozinha na última oportunidade que o espetáculo pode ser visto pelo povo alpinopolense, isso no ano de 1996. Para sustentar o sonho, foi necessário muito esforço e dedicação por parte de muita gente, segundo declarou Célio Ricardo Lemos, o Célio do Timirimba, último presidente da agremiação. “Era difícil levantar dinheiro para manter a escola em atividade, o que exigiu da comissão organizadora muita dedicação e criatividade. Chegamos a montar uma barraca na Expoal para ajudar nas despesas além de contarmos com outras fontes de financiamento, como doações, por exemplo. Infelizmente tudo isso acabou e, hoje em dia, para realizar um desfile do porte dos que fizemos, não ficaria em menos de R$ 300 mil”, afirmou.

Carro alegórico
‘Unidos de Ventania’ – 1988

CARNAVAL DE RUA

Após o último desfile da Unidos de Ventania, Alpinópolis passou a festejar o Carnaval exclusivamente em eventos patrocinados pela prefeitura, realizados na Avenida Aureliano Chaves. A folia chegou a contar algumas vezes com bandas de música para a animação do público, mas quase sempre, a festa era embalada por som mecânico. A última edição do Carnaval de rua de Alpinópolis se deu no ano de 2009 e, desde então, a cidade não oferece nenhum tipo de atividade durante a maior festa popular do Brasil.

Carnaval na Av. Aureliano Chaves – 2006

RETIROS ESPIRITUAIS

Muitos alpinopolenses optam por fugir da efervescência carnavalesca e rumam-se para os retiros espirituais. Alguns já se tornaram tradicionais como os acampamentos evangélicos realizados no Betel, desde o ano de 1981, que atraem a cada Carnaval um grande número de pessoas vindas de diversas partes do Brasil. Outro destino escolhido é a Canção Nova, onde a comunidade católica busca exercer intensamente sua espiritualidade nessa época. 

Retiro espiritual no Betel – Anos 80

HOJE EM DIA

Atualmente, em Alpinópolis, nem Carnaval existe mais. O que vemos hoje em dia é uma evasão generalizada dos alpinopolenses buscando destinos variados. Grande parte da juventude procura por carnavais tradicionais da região, como o de Carmo do Rio Claro, Guapé e Muzambinho, enquanto outros se rumam para cidades históricas ou litorâneas. Boa parte das famílias prefere a tranqüilidade dos ranchos e sítios.

Mas… E o povo? Onde ficou a população que não tem dinheiro para viajar, não tem rancho pra ir e não tem sequer condições de se deslocar para uma cidade vizinha ou para um retiro espiritual? O cerne da questão encontra-se no fato de que o evento tornou-se uma festa elitizada, principalmente ao perder algumas características de sua essência popular. E dos idos carnavais alpinopolenses, parece que restaram apenas as cinzas. Saudosismo? Sim..

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