Semana Santa – Tradição do Canto da Verônica em Alpinópolis

cantico_veronica_beus_alpinópolis

A Semana Santa sempre foi um período de grande apelo religioso e cultural em Alpinópolis, isso desde os tempos de São Sebastião da Ventania. É a época em que muitos católicos, que atualmente representam cerca de 89% da população, segundo o IBGE (Censo 2010), expressam sua fé, suas crendices e tradições populares.

Uma dessas tradições, o Canto da Verônica, mereceu ser apresentado como objeto de estudo, com fim de preservação da memória popular, pelos professores Dimas Ferreira Lopes e Conceição Lima. A obra intitulada “Ventania (MG): Tradição & Devoção” traz um estudo aprofundado sobre o aspecto histórico, por meio de uma rica abordagem poética de tradições seculares de Alpinópolis, inclusive o Canto da Verônica.

É fato que a Sexta-Feira da Paixão ainda continua exercendo fascínio sobre a população católica alpinopolense. No entanto, a mística e o aspecto melancólico deste dia ficam ainda mais acentuados quando a Verônica desenrola o sudário e canta lamentosamente, em latim, uma adaptação do trecho bíblico encontrado nas Sagradas Escrituras, notadamente nas Lamentações de Jeremias (Lm 1,12): “Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho? Considerai e vede, se há dor igual a minha, que veio sobre mim, com que o Senhor me afligiu no dia do furor da sua ira”.

Segundo a referida obra, em Alpinópolis, essa tradição tem sido executada, pelo menos, desde 1885, quando Antônio Luiz Maria de Freitas foi pároco no arraial, sendo organizador de uma sociedade musical, germe da Banda Santa Cecília, regida pelos maestros Aureliano Ferreira Lopes, Lúcio Quirino Ribeiro, Geraldo Aprígio de Paula e Omar Cabral Kraüss, depositária das partituras das missas cantadas e das cerimônias católicas, incluídas as da Semana Santa alpinopolense.

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Em vários lugares onde a tradição é cultivada, o texto base do cântico é inspirado na obra do italiano renascentista Carlo Gesualdo e é entoado da seguinte forma:

O vos omnes qui transitis per viam:
Attendite et videte si est dolor similis sicut dolor meus.
Attendite, universi populi, et videte dolorem meu.
Heu! Domine, Salvator noster!
Stabat mater dolorosa
Juxta crucem, lacrimosa
Dum pendebat Filius.
Virgem piedosa!
Virgem mãe de Deus!
Pelas vossas dores,
Abre-nos os céus.

Em Alpinópolis os cantos da Verônica e das Beús trazem uma peculiaridade, sendo apresentados como se fossem uma peça musical única, composta por uma estrofe-solo de três versos e por duas estrofes de quatro versos em coro resposta. Por aqui, na exibição musical, podem ser identificadas supressões na 1ª estrofe da peça. Dessa forma o vocábulo similis, do segundo verso e o inteiro teor do terceiro verso, desaparecem, para permitir a sonorização do lamentoso cântico, que assim fica entoado em nossa cidade:

O vos omnes
O vos omnes
Qui transitis
Per viam
Attendite
Attendite
Et videte
Si est dolor
Si est dolor
Sicut dolor
Dolor meus
Heu!
Heu Domine,
Salvator noster!
Salvator noster!
Stabat mater dolorosa
Juxta crucem, lacrimosa
Dum pendebat Filius.
Virgem piedosa!
Virgem mãe de Deus!
Pelas vossas dores,
Abre-nos os céus.
Pelas vossas dores,
Abre-nos os céus.

O Canto da Verônica em Alpinópolis, no passado e presente, nunca se afastou de ser exibido tradicionalmente em solo. O coro das Beús, geralmente composto por um trio de vozes, uma referência às três Marias presentes na crucificação, em Alpinópolis excedia a tradição de três participantes.

Na cidade, sem distinção entre falecidas e vivas, Verônicas e Beús, por ordem de estreia ou de permanência, atuaram e atuam devotamente: América Kraüss (Meca do Zezeca), Negrinha do João Barqueiro, Tonha do Zé Miguelinho, Maria do Tiãozinho Cardoso, Sulica do Zé Gabriel, Anita da Dona Basília, Maria José do Zé Barba, Aparecida Pereirinha, Dorvalina, Gasparina Reis (Fia), Dona Rola, Lucinha, Dona Luzia (da Prata), Fia do Pedro Cândido, Luzia do Noé (filha do Bastião Braz), Luzia do Antônio Custódio, Cida Ferreira, as irmãs Cida e Naninha, Cristina do Geraldo, Graça Kraüss, Márcia Kraüss, Mercedes Kraüss, Edília do Tião, Carminha Ribeiro, Selma Ribeiro, Edna Ribeiro, Vânia Ribeiro e Ângela Ribeiro.

Antes da procissão do enterro, quando acontece a mística cantoria, existe a ritualística retirada da imagem do Cristo fixada ao altar da igreja. Essa cerimônia é realizada por quatro homens (representando Nicodemos e José de Arimatéria) que se apresentam vestidos de túnicas com gorrões (capuzes) brancos, tendo as cinturas cingidas por cordões brancos. Antes do traslado e colocação no esquife, a imagem é direcionada a uma jovem que representa Maria, a mãe de Jesus morto. Alguns dos homens que encenam os chamados “José de Arimatéia”, também sem distinção de vivos e falecidos, são: João Gustavo, José Gustavo, Joaquim Gustavo e seu filho José (da Maria Borges), Neném Gustavo, Dionésio, Noé Firmino, Benedito Cesário, Geraldo de Paula, Renato do Lázaro da Ifigênia, Josué Ribeiro e Nego Braga. Já o papel da mulheres que representam Maria, tem sido exercido por variadas pessoas, não podendo ser atribuído a um rol tradicional, estando entre elas: Rose (filha da Valdete), Ana Augusta (filha da Marília) e Ana Cláudia (filha da Neiva).

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA: Lopes, Dimas Ferreira; Lima, Maria Conceição Alves de. Ventania (MG): tradição e devoção: um enfoque cultural / Dimas Lopes e Conceição Lima. Ribeirão Preto: Maria Conceição Alves de Lima, 2016. 212f. ISBN: 978-85-917511-2-9

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