Prefeito Antônio de Freitas, um homem além de seu tempo

No início de 1977, portanto há mais de 42 anos, encerrou-se o mandato de Antônio José de Freitas, um dos prefeitos mais eficientes e polêmicos que comandaram o município de Alpinópolis. Freitas foi o 16º mandatário alpinopolense, empossado em 31 de janeiro de 1973 depois de vencer, por uma diferença de 507 votos, o pleito de 15 de novembro de 1972 disputado contra José Freire Gonçalves.

A atuação de Antônio de Freitas frente ao Executivo Municipal vem oportunamente ser aqui lembrada, pois em seu mandato fez-se exatamente o deveria ser feito. Sem medo de represálias, sem jogos politiqueiros e sem o desprezível clientelismo, as ações foram executadas de maneira sóbria e sob austero planejamento, algo que precisava urgentemente acontecer novamente. Outro homem público que merece atenção por ter seguido uma linha administrativa similar e igualmente louvável é Alberto Gonçalves Freire, cujo governo será oportunamente detalhado em artigo específico. Freitas e Alberto eram representantes de grupos políticos historicamente opostos, apoiados por UDN e PSD, respectivamente.

Segundo observações, gentilmente adiantadas pelo professor Dimas Ferreira Lopes (contidas em sua futura publicação denominada “História de Alpinópolis – Parte II”), Antônio de Freitas foi um prefeito técnico e deixou como marca maior de sua gestão a severidade fiscal, havendo executado integralmente a dívida tributária da época. Isso o fez com a convicção que, com este ato, seria possível organizar, coordenar e controlar a administração financeira municipal, ponto de partida para qualquer gestão que objetive realizar um trabalho de base que permita boa atuação nas demais áreas.

“Antônio de Freitas, antes de ser prefeito, foi professor de química, e tendo esse perfil de crente em leis científicas sempre exatas, sabia que caixa municipal vazio o impediria de governar com pacificação contábil”, aponta Dimas. A coragem do ato de Freitas trouxe, no entanto, efeitos colaterais que medidas impopulares, porém necessárias, trazem naturalmente. O desgaste político foi inevitável e a simpatia pelo partido que o elegeu foi mortalmente atingida fazendo com que sofresse as derrotas eleitorais dos três pleitos seguintes. “Freitas pagou o preço, mas pagou com coragem e penso que agiu corretamente. O problema é que uma dívida tributária pesa diferente para o contribuinte rico e para o pobre, talvez ele devesse ter aplicado algumas anistias que a legislação da época permitia. Porém, em suma, posso dizer que tenho uma excelente impressão do mandato de AJF”, pontuou o professor.

Outra ação relevante do governo de Freitas foi a implantação na cidade das luzes de mercúrio em postes de cimento, como prelúdio da modernidade, dividindo a história municipal em “Período Ventania” – fase antiga da lamparina e postes de madeira com “tomatinhos incandescentes” (desde o mandato do primeiro prefeito de Alpinópolis Antônio Herculano dos Reis até o penúltimo mandato de Osvaldo Américo dos Reis) e “Período Alpinópolis” – fase moderna (Freitas em diante).  Além destas duas ações mais expressivas, merecem também registro outras intervenções realizadas por AJF como a construção da Praça Marechal Deodoro (atual Praça Dr. José de Carvalho Faria – Rosário), as obras na zona rural (abertura de estradas, colocação de mata-burros de metal, construção de pontes, etc.), investimentos estruturais no setor educacional (criação do Departamento de Educação e construção de grupos escolares rurais), conclusão das obras do fórum local e a expansão urbana através do início das bases para o loteamento do bairro Mundo Novo.

Vista aérea do município de Alpinópolis durante a gestão de AJF
Foto aérea tirada durante a gestão de Antônio de Freitas

A gestão AJF trouxe a Alpinópolis, simultaneamente, valores de eficiência e de democracia. De eficiência, no sentido em que houve clareza na definição dos objetivos fiscais de suas ações e sua operacionalização traduziu-se em resultados que permitiram toda uma organização pautada em cofres cheios e, portanto, permitindo boa governabilidade. De democracia, na dimensão em que suas ações na área tributária, envolvendo cadastramento urbano das propriedades para fins de cobrança de um IPTU justo e execução da dívida fiscal, a cidade foi homogeneamente atingida, sem distinção de classe social ou posicionamento político. Todos foram igualmente afetados pelas medidas e, posteriormente, beneficiados por elas.

O governo de AJF não foi radicalmente tecnicista e contou com uma dosagem política acertada. Dispondo do apoio administrativo de figuras com bom trânsito dentro do cenário político tradicional da época, como o senhor Onofre Paschoal dos Santos (Sabiá) e o professor Edeltides de Souza, entre outros, a administração tornou-se eficiente pelo equilíbrio nesse sentido. Uma gestão informada pela técnica, que foi capaz de atender sua necessidade de organização, mas também política, que permitiu bom relacionamento com outras esferas de poder resultando, portanto, no regular funcionamento e integração da máquina administrativa municipal.

Prefeito Antônio de Freitas ao lado do vereador Edetildes de Souza
AJF ao lado do vereador Edetildes de Souza – 1975

Qualquer administração pública, para funcionar bem, precisa contar com uma estrutura que contemple a sua necessidade organizacional. Mas também precisa, imperiosamente, de traquejo político (não politiqueiro), para estabelecer os contatos necessários, visando promover um adequado diálogo com as diversas partes interessadas, e seja construtora do bem-estar social.

Infelizmente a história recente da gestão pública alpinopolense está incrustrada de “ismos” (clientelismo, patrimonialismo, empreguismo, nepotismo, etc.), o que vem sabotando a formulação de um planejamento apropriado que levaria (ou traria de volta) a tão almejada eficiência administrativa. É preciso tratar a Prefeitura de Alpinópolis como o que ela de fato é, ou seja, patrimônio do povo. Quando se tenta transformar a política pública em administração privada, o resultado cheira mal.

A esperança ainda segue firme, todavia, a realidade não é tão doce quanto a ilusão causada pelas mirabolantes promessas dos políticos em suas campanhas eleitorais. É preciso pé no chão e abundância de espírito público para colocar, com efeito, Alpinópolis nos trilhos. Seria uma boa hora para “um novo” Antônio de Freitas gerenciar a cidade?

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