O mártir São Sebastião e a história de Alpinópolis

O Dia de São Sebastião, 20 de janeiro, é uma data especial para o povo alpinopolense. Não apenas no aspecto religioso, mas também histórico, já que o aniversário da cidade era comemorado – por equívoco até 1997 – justamente nessa data. O padroeiro é venerado com algum tipo de festejo em Alpinópolis, possivelmente, desde o ano de 1808, quando foi construída a primeira capela a ele dedicada.

Data desta época, segundo o Livro do Tombo Paroquial, um documento emitido pelo clérigo Antônio Joaquim de Mello, bispo diocesano de São Paulo, transcrito pelo padre Francisco de Assis Pinheiro Ulhôa Cintra (cerca de 60 anos depois) indicando as datas santas que deveriam ser comemorados pelas comunidades abrangidas pela diocese de São Paulo —da qual Ventania fazia parte nesta época—, o que incluía os festejos dedicados ao mártir São Sebastião.

Apesar da ausência de registro direto às festas do padroeiro nos documentos mais antigos, há uma foto de 1916, do acervo do escritor Omar Cabral Krauss, com as imagens das festas de Natal daquele ano, onde podem ser vistos alguns Ternos de Congo, ou Moçambique, e a Cavalhada. Na ponta esquerda inferior do retrato é possível ver a barraca de prendas montada para a Festa de São Sebastião de 1917. Esse é o registro mais antigo desta festa.

O ano de 1919 já possui registro documental e mereceu destaque nos escritos do Padre Vicente Bianchi, pois foi essa a única vez na história da cidade em que o padroeiro não foi venerado em seu dia e mês, o 20 de janeiro. Isso porque a pandemia da Gripe Espanhola, que assolava o mundo, não poupou Alpinópolis, onde fez cerca de 158 vítimas. Neste fatídico ano, por motivos sanitários, a Festa de São Sebastião foi comemorada em 23 de fevereiro, segundo conta o historiador José Iglair Lopes.

A partir daí os registros paroquiais se tornaram mais precisos. Padre Vicente, com sua boa caligrafia, documentou o ocorrido na maioria das festas, focando sempre a parte religiosa do evento, quando eram realizados nove dias de novenas, com missas e procissão.

Eram mencionados, por exemplo, os nomes dos festeiros e dos pregadores de fora que vinham participar —algumas vezes citando até o tema das pregações—, o número de confissões feitas e comunhões dadas aos fiéis, a quantidade de participantes na procissão do dia 20, que sempre acontecia às 17h, entre outras coisas. Há poucas menções à parte social da festa.

Alguns anos foram descritos com mais detalhes.  Em 1925, por exemplo, o festeiro foi Domingos Pinto dos Reis e a arrecadação alcançou 3:000$000 (três contos de réis), dinheiro entregue ao senhor Antônio Villela, para que fosse levantada a torre da Igreja Matriz de Alpinópolis, obra finalizada cinco anos depois. Neste ano, segundo consta, a festa foi organizada às pressas, o que não impediu que fosse um sucesso. Em 1926 o festeiro foi Jovenal Gonçalves de Moraes, para pagamento de promessa, e em 1927 a festa ficou a cargo de Francisco Villela dos Reis.

De acordo com o historiador Juliano Pereira de Souza, a partir da década de 30 as festas passaram a contar com mais de um festeiro, sendo geralmente, dois casais de destaque da comunidade. Curioso é que as anotações, nesse período, davam pouco destaque para o nome das mulheres, apesar de serem citadas. Por exemplo, na festa de 1938, consta que os festeiros eram Antônio Rodrigues de Oliveira e a esposa de Antônio Gonçalves dos Reis. Já em 1939 eram Justo Pieraldini e Orvalia, esposa de Osvaldo Brasileiro. Exceção foi a festa de 1936, quando “se fez um sol esplêndido”, e os festeiros foram João Gonçalves Freire e Dona Laura Gonçalves de Moraes.

Em 1934 foi o primeiro ano em que consta registro da participação de missionários redentoristas na Festa de São Sebastião. Neste ano o pregador foi Otto Maria, de Aparecida-SP, que foi recebido em Alpinópolis pelo então seminarista alpinopolense Gerardo Ferreira Reis, que se tornaria bispo anos mais tarde.

A festa de 1937 foi celebrada logo após um dos mais tristes episódios, envolvendo questões religiosas, já ocorridos em Alpinópolis: a queima do templo evangélico, por parte de fiéis católicos, na noite do Natal do ano anterior. Dessa forma, o momento era conturbado e os festejos serviram, em parte, para amenizar a má impressão deixada pelo acontecido. Os festeiros deste ano foram Isac Bento Vilela e Maria Emília Lemos de Rezende. Esta última era esposa do farmacêutico Antônio Anacleto Rezende e sogra de Osvaldo Américo dos Reis, que viria a ser ferrenho adversário político de Isac Vilela, alguns anos depois.

O evento de 1940 traz, em suas anotações, algo inédito na história das comemorações do mártir em terras alpinopolenses. Foi a única vez em que constava, exclusivamente, o nome de uma mulher como festeira. Trata-se da senhora Rita de Carvalho Pereira, que contava 45 anos à época. Ela era viúva de José Adolfo Pereira, filha de Tomé Villela dos Reis e mãe da saudosa Izabel de Carvalho Pereira, a Dona Bela.

Na primeira metade da década de 40 os festeiros foram  Lupércio da Silva Couto e Dona Elvira de Castro Silva (1941), Francisco de Sales Vilela e Dona Maria Vilela dos Reis (1942), José Brasileiro e Ester Gonçalves Brasileiro (1943), Geraldo José de Freitas e Dona Candita Edit Vilela (1944), esta última com pregação do já padre Gerardo Ferreira Reis. A última festa realizada na antiga Igreja Matriz aconteceu em 1945, quando foram festeiros o casal Francisco Gonçalves de Faria e Dona Maria Emiliana Cândida de Faria. Neste ano, o antigo templo —bastante deteriorado— foi demolido e começou a construção do novo, que faria uma unidade harmônica com a torre levantada 15 anos antes.

Entre 1946 e 1949 a Festa de São Sebastião foi realizada na Igreja do Rosário. Este período conta com registros genéricos, indicando o nome dos festeiros apenas de 1946, que foram José Jacinto Ribeiro e Dona Ana Gonçalves Ribeiro. Em julho de 1949 foi inaugurada a nova Matriz.

A primeira festa do recém-construído templo aconteceu em 1950, sendo festeiros João Franklin Pinto e a Dona Geny Ávila Reis. A renda foi destinada para pagamento de dívidas – possivelmente contraídas com a obra terminada no ano anterior. Essa foi a última festa promovida pelo Padre Vicente, que faleceu em novembro e foi substituído pelo Padre Ubirajara Cabral.

As décadas de 50 e 60 apresentam apenas anotações superficiais, as quais não contam, sequer, com nomes de festeiros. Os registros voltaram a ser mais precisos somente nos anos 70. Em 1973 os festeiros gerais foram Antônio Morais e Lázaro de Carvalho Faria, sendo a renda da festa destinada a pagar despesas com a construção da nova casa paroquial.

1974 pode ser considerado um ano especial da Festa de São Sebastião. Este foi o primeiro ano em que esteve presente uma figura icônica dessa festa: o sacerdote Antônio Braz de Figueiredo, o popular Padre Figueiredo. Logo se juntou a ele o Padre Hélio Libardi e, partir daí, a vinda dos missionários redentoristas se tornou tradição na Festa de São Sebastião. Os festeiros de 74 foram Sebastião Mezêncio Leite e Luiz de Ávila. A renda foi aplicada na construção de um ambulatório para os trabalhadores rurais de Alpinópolis.

No decorrer da década, há registro formal apenas dos festeiros de 1975, Miguel Carvalho Faria e José Braz, e os de 1979, José Bueno e Osvaldo Antônio Rezende Reis. A partir de 79 os recursos da festa passaram a ser destinados para a construção do novo hospital de Alpinópolis. Em 1982 foram festeiros Lázaro Carvalho Faria e Sebastião Pimenta Moraes. A Santa Casa de Misericórdia de Alpinópolis, que leva o nome de Cônego Ubirajara Cabral, foi inaugurada em janeiro de 1984 e, segundo o próprio idealizador, foi construída “com dinheiro de cartucho e frango”, em referência aos brindes leiloados durante os festejos de São Sebastião.

Consta que os recursos de 1987 e 1988 foram usados para construir o pavilhão pediátrico do hospital. Já o dinheiro da festa de 1989 foi empregado na construção do salão paroquial e as arrecadações de 1990 e 1991 usadas para a ampliação dessa obra. Em 91 o Padre Ubirajara passou a paróquia para o Padre Luiz Tavares.

Neste ano de 2021, sob o comando do pároco Donizetti de Brito, a Festa de São Sebastião passa, mais uma vez, por uma adaptação necessária. Devido a outra pandemia, a do novo coronavírus, as celebrações acontecem com número limitado de pessoas no templo e são transmitidas, ao vivo, pela Rádio FM Ventania, pelo Facebook e pelo YouTube. Inclusive o tradicional leilão de gado da festa foi realizado no formato online.

REPERTÓRIO MUSICAL

Durante os 11 dias da festa a cidade escuta duas canções, tocadas nos alto-falantes da Matriz, pelo menos por três vezes ao dia. Uma delas é o Hino a São Sebastião, cuja abertura traz o seguinte verso: “Glorioso Mártir, oh São Sebastião… dê a seus devotos firme proteção”.

A outra —coisa que poucos sabem— é o trecho de uma famosa ópera, porém tocada no trompete. Trata-se do “Va, pensiero”, também conhecido como o “Coro dos Escravos Hebreus”, presente no terceiro ato da ópera Nabucco (1842) de Giuseppe Verdi, inspirado no Salmo 137 das sagradas escrituras.

Essas duas músicas passaram a ser tocadas na Festa de São Sebastião de 1974, trazidas pelos padres das Santas Missões Redentoristas, seguindo assim até os dias de hoje, inclusive com o mesmo arranjo instrumental.

A BARRACA

A parte social da Festa de Sebastião acontecia, antigamente, em uma barraca que ocupava toda a parte frontal da Igreja Matriz. Desde o início – a foto mais antiga remonta ao ano de 1916 – a construção era feita de madeira. Para a festa de 1993 foi forjada uma estrutura metálica e, a partir daí, a habilidade dos carapinas voluntários deixou de ser necessária, pois bastava que as peças fossem encaixadas.

A barraca era montada em formato de T, cercada de tela, ocupando de fora a fora a antiga rua que cortava a praça ao meio – onde hoje existe um calçadão – e subindo, perpendicularmente, pelo corredor central do jardim, quase até a escadaria do templo.

Nas extremidades, do lado direito – de quem olha da porta da igreja – ficava um pequeno cercado destinado aos animais que seriam leiloados. No lado esquerdo era instalado o bar e, na outra ponta, em uma plataforma suspensa, o charmoso leilão de prendas, onde podiam ser vistos os multicoloridos cartuchos e os brindes embrulhados em papel celofane. No meio da barraca, onde está o monumento do marco comemorativo, era construído o palco e as mesas eram distribuídas harmoniosamente por todo o espaço interno.

Terminada a parte religiosa, o estouro de um ‘foguete de rabo” indicava o começo das atividades sociais. A Banda Santa Cecília (Banda do Piriri) tocava marchinhas de todas as épocas e fogos pipocavam no ar o tempo inteiro, mostrando até para quem estava mais distante a animação geral. Dentro da barraca shows musicais e outras apresentações artísticas eram realizados até a alta madrugada, isso durante os dez dias de festa, para deleite dos frequentadores.

A parte social aconteceu na praça, nesses moldes, até o ano de 2005. A partir daí, por determinação da paróquia, a festa foi transferida para o salão do Lar Santo Antônio, local onde ainda é realizada.

PARTE RELIGIOSA

O 20 de janeiro era —e ainda é— o dia de realização da procissão que sai da Matriz e percorre as ruas da cidade, quando os fiéis católicos levam o andor com a imagem do santo que fica no altar-mor da igreja. Tal estátua foi esculpida no Rio de Janeiro em 1949, ano da inauguração do majestoso templo.

A veneração a São Sebastião acontece em Alpinópolis desde sua fundação. Foi em 1782 que D. Frei Manuel da Ressurreição, bispo de São Paulo, concedeu a primeira licença para fundar, erigir e edificar uma ermida ao mártir católico no antigo arraial, que acabou herdando o nome do santo. No entanto, a construção somente foi finalizada em 1808. Desde então, o templo foi levantado, derrubado e reconstruído, porém sempre no mesmo local. Exatamente onde está hoje.

Desde então, a Festa de São Sebastião tem sido comemorada em Alpinópolis com novena, procissão, bandas musicais e leilões. As festividades acontecem na Igreja Matriz, onde fica exposta a imagem do santo, esculpida pelo escultor J. Quintas, no Rio de Janeiro, a pedido de Joaquim Pimenta de Mello (Quinca) e Mariana Pimenta Freire (Lana), casal que fez a doação à paróquia.

Há uma crença de que São Sebastião seria o protetor da pecuária, daí sua forte tradição na zona rural. Por isso os produtores, fazendeiros ou sitiantes, sempre oferecem animais vivos para os leilões e a renda é revertida para obras sociais da igreja.

No vídeo abaixo, vemos o final da procissão do mártir e duas figuras marcantes deste período festivo da cidade, o padre Figueiredo, realizando a cerimônia religiosa, e o padre Ubirajara agradecendo e encerrando oficialmente a festa de 1989. Vemos, ainda, a Banda do Piriri tocando o Hino Nacional. 

O MÁRTIR NA IGREJA MATRIZ

Segundo registro dos professores Dimas Ferreira Lopes e Conceição Lima, a Igreja Matriz de Alpinópolis conta, em sua parte interna, com uma galeria de nove pinturas em vitrais, verdadeira obra de arte, retratando passagens e personagens relevantes da vida de São Sebastião.

ALTAR PRINCIPAL

1º vitral: Ofertado pela família de José Antônio de Freitas, mostra quando São Sebastião obtém a conversão de Cromácio, prefeito de Roma e de outras pessoas.

 

2º vitral: Oferta de Antônio Cândido de Lima e família, retrata o santo pregando a mensagem cristã aos encarcerados.

 

3º vitral (central, rente à cruz): Doado por Olímpio Manoel e João Alves Vilela, revela a glória de São Sebastião, anjos com a palma do martírio e a coroa dos justos.

 

4º vitral: Oferecido pelos irmãos Borges em memória de Ana Francisca de Figueiredo, mostra o primeiro martírio por flechas do santo, no qual não morreu.

 

5° vitral: Doação de João Coelho Paim Filho e família, exibe São Sebastião junto de Santa Irene, esta que dele cuidou até a recuperação da saúde depois do primeiro martírio.

 

ALTAR SECUNDÁRIO (direita de quem entra)

1º vitral: Ofertado por Tomé Vilela dos Reis e família, mostra o santo recuperado após o primeiro martírio diante do imperador romano Diocleciano.

 

3º vitral: Doação de Antônio de Oliveira Lemos, retrata o segundo martírio de São Sebastião, no qual irá morrer, junto a Santa Luciana, que o recolheu e lhe deu sepultamento.

 

ALTAR SECUNDÁRIO (esquerda de quem entra)

1º vitral: Oferta de José Gonçalves dos Reis e família, mostrando o papa ungindo o santo e investindo-o como subdiácono da Igreja Católica.

 

3º vitral: Doado por Horácio Gonçalves Moraes, João Beltrão de Moraes e Afonsino de Paula Vilela, mostra quando São Sebastião ora a Deus e Zoé recupera a voz.

Obs.: Os segundos vitrais, tanto do altar da direita quanto da esquerda, não foram citados pois não fazem referência ao mártir.

 

Referências Bibliográficas:

LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

SOUZA, Juliano Pereira de. Ventania, valorizando nosso povo/Juliano Pereira de Souza. – Belo Horizonte: O Lutador, 2020.

Lopes, Dimas Ferreira; Lima, Maria Conceição Alves de. Ventania (MG): tradição e devoção: um enfoque cultural / Dimas Lopes e Conceição Lima. Ribeirão Preto: Maria Conceição Alves de Lima, 2016. 212f. ISBN: 978-85-917511-2-9

 

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