Há 100 anos, gripe espanhola matou mais de 150 em Alpinópolis

Vista panorâmica de Alpinópolis no ano de 1919.

Considerada uma das mais severas pandemias da história da humanidade, a gripe espanhola não poupou Alpinópolis e por aqui deixou um saldo de 158 mortos entre 1917 e 1919. A doença – causada pelo vírus da Influenza A, do subtipo H1N1 – atingiu principalmente a população jovem, sendo que mais de 75% das vítimas tinham menos de 30 anos de idade.

A gripe espanhola – como ficou conhecida devido ao fato de muitas das informações a respeito da enfermidade terem sido transmitidas pela imprensa da Espanha – matou um número considerável de alpinopolenses. Perigoso, sobretudo para os pulmões, o vírus provocava uma congestão muito grave das vias respiratórias que fazia com que os contaminados se asfixiassem. Um estudo da evolução da epidemia em Alpinópolis mostra que, das 158 vítimas, 22 morreram no ano de 1917, outras 31 em 1918 e 105 em 1919.

A primeira morte aconteceu no bairro rural dos Pinheiros, em agosto de 1917, segundo registro feito por Aureliano Carlos Ferreira Lopes (Sô Leriano), responsável pelo Cartório do Registro Civil local no período em questão. Porém a maior parte dos falecimentos foi anotada pelo cartorário interino, José Elias Ribeiro Vianna, que assumiu os trabalhos devido a uma doença (não a gripe espanhola) do titular.

De acordo com o livro do tombo da Paróquia de São Sebastião, Alpinópolis contava com cerca de 5.600 habitantes à época, o que indica um alto índice de morbidade causado pela influenza. Epidemiologistas utilizam para mensurar a frequência das doenças, em uma população determinada, uma fórmula que divide o número de mortos pela quantidade de moradores do local analisado, sendo o resultado multiplicado por 10.000, assim chegando ao coeficiente de mortalidade. Ao aplicar a fórmula fazendo uso dos dados de Alpinópolis chega-se ao coeficiente de 187 mortos a cada 10 mil habitantes, isso apenas em 1919, índice considerado alto. Somente a título de comparação, no mesmo período, o índice de Varginha foi de 83 e o de Belo Horizonte de 43.

Os registros revelam que, em Alpinópolis, os óbitos ocorreram entre de agosto de 1917 e o final de 1919. Os mais atingidos compunham a classe social de menor nível socioeconômico, constituída por lavradores e prestadores de serviços domésticos, assim como a população rural, já que mais de 70% dos moradores alpinopolenses viviam no campo.

Analisando as estatísticas pela faixa etária, conclui-se que a maior parte dos falecidos em Alpinópolis tinha menos de 30 anos. Foram 77 crianças com até 10 anos de idade, o que totaliza quase metade (48,7%) das vítimas; 22 jovens que tinham entre 11 e 20 anos (13,9%); e outros 20 contando entre 21 e 30 anos (12,6%).

A epidemia tornou trágico o primeiro mês de 1919, época em que tradicionalmente se comemora os festejos do padroeiro da cidade.  Entre os dias 11 e 20 de janeiro daquele ano, foram 39 mortos pela gripe espanhola em Alpinópolis. De acordo com relatos de antigos moradores, os sinos tocavam o dia inteiro anunciando os passamentos e não ficou ninguém sem perder um parente, amigo, vizinho ou conhecido.

Ao que consta, devido ao momento desastroso, foi a única vez na história em que a Festa de São Sebastião foi celebrada no dia 23 de fevereiro – e não em 20 de janeiro, dia dedicado ao santo  – conforme registrado no livro do tombo paroquial.

No Brasil, a epidemia deixou aproximadamente 35 mil mortos. A vítima mais conhecida foi o presidente eleito Francisco de Paula Rodrigues Alves, que faleceu em 16 de janeiro de 1919, sem conseguir tomar posse para cumprir seu segundo mandato.

Referência Bibliográfica: LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

Deixe uma resposta