Festa do Reinado chega a sua 189ª edição em Alpinópolis

É fim de ano na Ventania! Época maravilhosamente envolvida por uma aura festiva, quando a cidade testemunha uma deslumbrante explosão de cores e cantos, algo difícil de ser descrito. Mas, para explicar a arte nada melhor que a própria arte, assim nos valemos dos versos do saudoso poeta Fiico Alvim, o Bola, para expressar tanta beleza e emoção: “…como está linda minha Ventania, terra de meus amores…”.

Terno Branco se apresentando na Praça São Benedito.

É a temporada dos festejos natalinos e preparativos para o novo ano. Para muitos é a data de dedicação ao folclore e à religiosidade da Festa do Reinado, que já chega ao seu 189º ano de existência. É incrível pensarmos que há tanto tempo, os ternos de Congo e Moçambique já desfilavam por nossas ruas, alegrando o Natal do então arraial de São Sebastião da Ventania.

HISTÓRIA

Segundo conta o historiador José Iglair Lopes, as festividades de Natal, Ano Novo, Semana Santa e Festas Juninas, são preservadas em Ventania desde 1828, quando foi fundada a Irmandade Nossa Senhora do Rosário. Notadamente no final do ano, o folclore e a religiosidade são manifestados com muito simbolismo pelos ternos de Congo e Moçambique, Pastores, Pastorinhas e Cavalhada.

Festa do Reinado de 1916
Nesta época, os festejos natalinos eram comemorados entre as duas igrejas existentes. Ao fundo a antiga Capela do Rosário.

IRMANDADE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

A irmandade Nossa Senhora do Rosário foi fundada em 1828 por João Alves de Figueiredo (genro de D. Indá) com a finalidade de organizar a Festa do Reinado no arraial. A Capela do Rosário, supostamente construída no mesmo ano de 1828, foi erigida ao fundo do Largo (onde hoje é a residência do Léo do Posto) com a frente voltada para a antiga Capela de São Sebastião, sendo erguido um cruzeiro entre as duas igrejas. Era nesse espaço, em volta do tal cruzeiro, que ocorriam os antigos festejos. A irmandade foi composta durante toda sua existência por nomes ilustres da história alpinopolense como José Jacinto Ribeiro, Antônio Gonçalves de Moraes, Quirino dos Reis, João Francisco de Faria e Justino José Moreira.

Terno de Moçambique do capitão João Eva – 1974

A FESTA

A Festa do Reinado faz parte da história de Alpinópolis. Tradicionalmente a abertura oficial do evento ocorre no dia 24 de dezembro com a Missa do Galo, quando alguns ternos de Congo já saem em cortejo pela cidade após a cerimônia. São quatro dias de uma intensa festança que concentra um dos maiores números de congadeiros e moçambiqueiros do estado de Minas Gerais. São seis ternos de Congo e três de Moçambique que envolvem mais de 30 pessoas na coordenação.

Terno Azul
Capitães Augusto Belizário e João Balaio – 1999

Um típico e tradicional “almoço de Congo”

Existem antigas regras e rituais que norteiam a realização da festa, como as procissões, as passagens das coroas, a chamada dos irmãos de mesa com a reza do terço, a escolta dos reis e rainhas e o levantamento dos mastros. Todos os dias, exceto o 25, são servidos almoços, jantares e “agrados” para os componentes dos ternos.  A tradição de alimentar os participantes da festa, é um costume muito antigo na cidade. O festeiro, como é chamado o ofertante do banquete, geralmente é motivado a fazê-lo em função do pagamento de uma promessa ou mesmo por amor ao folclore e à religiosidade.

O coordenador José Acácio Vilela explica que o Reinado é a mais antiga e tradicional festa da Ventania e uma de suas funções é afirmar os valores culturais e religiosos dos alpinopolenses. “Estou envolvido no evento há mais de 20 anos, desde quando herdei o cargo de governador de meu pai. Interessante é ver como a festa cresce a cada ano e como o povo se identifica de fato com ela. As pessoas que hoje participam dos festejos já viram seus pais e avós participando em outras épocas e sabem que seus bisavós e tataravós também o fizeram em tempos muito antigos. Essa gente faz questão de manter nossa tradição. A verdade é que a Festa do Reinado se confunde com a própria história de Alpinópolis”, afirma o governador.

Terno de Congo dos capitães Josué Custódio e Albertino Tiago – 2005

OS BALUARTES DO REINADO 

Capitão Baltazar Vicente

Jamais pode ser esquecido que a tradição sempre se manteve pela dedicação de pessoas abnegadas e voltadas à cultura popular, dentre elas podemos citar José Herculano Freire (Pilúcio), Vicente Vilela Lemos, José Custódio, Benedito Cesário do Carmo, Dionésio Gonçalves, Aurora Magnólia de Morais, Alípio Pio, José Borges de Paula (Deco), Afonso da Silva Leite, Tião Maia, Geraldo Freire (Geraldo do Pilúcio), Leonaldo Cândido da Silveira (Léo do Posto), Maria Borges, Antônio Américo (Boca Seca), Sudário Teófilo de Castro, Noé Moreira da Silva, João Belmiro, Augusto Belizário, José Vicente da Silva (Batatinha), José Vieira, Taé Carioca, entre tantos outros. Depois de seis décadas a Festa do Reinado irá acontecer com a ausência do grande líder do Terno Verde e Amarelo, o capitão Baltazar Vicente, falecido este ano.

Essa que foi uma das figuras mais marcantes da Festa do Reinado, participou dos festejos pela primeira vez com apenas sete anos de idade, dançando em um terno de Moçambique. Logo, aos 14 anos, sentiu no coração que seu lugar era mesmo na congada e pra lá se transferiu. Em menos de seis anos como congadeiro, já assumiu o terno como capitão, posto que ocupou por mais de 65 anos com muita fé e dedicação. Baltazar Vicente faleceu em 20 de junho de 2017, com 86 anos, deixando uma lacuna na história cultural de Alpinópolis.

 
 
 
 
Referência Bibliográfica: LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.