Esgoto jogado na Gruta é alvo de denúncia em Alpinópolis

De um lado moradores denunciam um problema que, segundo eles, se arrasta há anos e vem incomodando parte da população de Alpinópolis, que é o abandono e o esgoto lançado na Gruta, um dos pontos turísticos com belezas naturais no município. E do outro lado, tanto a administração municipal quanto a Companhia de Saneamento de Minas Gerias (Copasa), alegam que o local está limpo e há dois anos foi feita uma Estação de Tratamento.

A Gruta, que é um patrimônio constitutivo de identidade da população alpinopolense, em razão da sua importância histórica, simbólica e religiosa, vem sofrendo com o descaso do poder público há considerável tempo. O local, que conta com uma cachoeira de grandes proporções, apesar de compor o conjunto paisagístico da Serra da Ventania, está praticamente colado à cidade, situado na zona urbana do município.

Alpinópolis é dos poucos municípios que contam com uma queda d’água desse tamanho – são 14 m aproximadamente – dentro de seus limites urbanos. Um privilégio. No entanto, o local está muito mal cuidado e praticamente não oferece condições de ser frequentado, já que o córrego que abastece a cachoeira recebe esgoto doméstico in natura, o que acaba provocando um mau cheiro insuportável. Contudo, nem sempre foi assim e muitas pessoas, em épocas não tão remotas, tomavam banho nessas águas e nadavam no pequeno poço que se forma embaixo da queda.

O descaso com a Gruta chega ser afrontoso, não apenas pelos aspectos ambientais e turísticos, mas também por envolver questões culturais e religiosas. Foi nesse lugar que supostamente, há cerca de 120 anos, apareceu a Santa da Ventania, acontecimento que atraiu romarias de numerosas partes de Minas Gerais e de outros estados, que ali passaram a chegar em busca de curas milagrosas. Assim, no decorrer dos anos, foi-se criando o hábito de levar até o local imagens de santos, roupas, objetos pessoais – incluindo muletas e óculos – quase sempre lá deixados como comprovação de alguma graça alcançada. Outra crença alimentada por muito tempo era a de que o limo retirado do paredão, conhecido como Barro da Gruta, possuía propriedades medicinais.

No entanto, em função do mencionado problema sanitário, entre outros fatores, essas práticas foram se tornando cada vez mais raras, chegando quase a desaparecer. Atualmente são poucas as pessoas que ainda insistem em ir à Gruta. As visitas se resumem praticamente ao dia 12 de outubro, quando é comemorado o Dia da Padroeira do Brasil e no local, onde existe uma capela, é realizada uma missa. Todos os anos, após a celebração, muitos fiéis inconformados não economizam nas críticas, principalmente por meio das redes sociais, protestando sobre a situação de abandono e direcionando cobranças à Copasa – concessionária que, em 2016, assumiu os serviços de coleta e tratamento de esgoto da cidade – e ao poder público municipal.

O problema já é antigo, mas foi intensificado a partir do ano de 2013. Isso ocorreu em função do avanço de uma obra do sistema de esgotamento sanitário, realizada pela Prefeitura de Alpinópolis com recursos da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), quando uma quantidade considerável de esgoto doméstico foi desviada para o corpo d’água que alimenta a cachoeira. À época, em face aos protestos da população, a administração municipal alegou que não havia alternativa para tornar possível a sequencia das obras a não ser realizar o desvio, porém se comprometeu a sanar o impasse posteriormente, o que obviamente não ocorreu. Pedidos de providências, por parte do Conselho Municipal de Saúde (CMS), também foram encaminhados aos órgãos subordinados à prefeitura, como o Conselho Municipal de Defesa e Conservação do Meio Ambiente (Codema) e o Departamento Municipal de Agricultura e Meio Ambiente, o que também acabou não surtindo nenhum efeito.

No decorrer desses anos, ações pontuais – como mutirões de limpeza e manifestações de populares com distribuição de panfletos, por exemplo – chegaram a ser realizadas, no entanto, nada que trouxesse soluções definitivas para o impasse da poluição da Gruta, que segue se intensificando.

Panfleto distribuído por populares em outubro de 2015.

Os moradores já recorreram, inclusive, à imprensa para tentar dar maior projeção ao problema, sendo os protestos publicados no espaço reservado a demandas populares – Seção Livre do jornal Folha da Manhã – em duas oportunidades (em maio de 2015 e fevereiro de 2016). Em ambas as reclamações a Prefeitura de Alpinópolis preferiu se omitir e não respondeu aos questionamentos feitos pela população.

Recentemente uma jovem, que preferiu não ser identificada, encaminhou à redação fotos mostrando que a cor da água da cachoeira vem se tornando mais escura. Ela ainda relata que a impressão é que o mau cheio no local piora a cada dia o que, supostamente, indicaria que a quantidade de dejetos lançados no córrego que abastece a queda d’água está aumentando. “Estive na Gruta em dezembro do ano passado e, como sempre, o cheiro de esgoto e a aparência da cachoeira me deixaram incomodada. Porém, quando voltei, isso pouco tempo depois, no final de janeiro deste ano, para minha surpresa, tanto a cor da água quanto o mau cheiro haviam piorado. Sou uma amante da natureza inveterada e, em função disso, mesmo com o odor desagradável e esse aspecto turvo da água, continuei insistindo em frequentar essa maravilha natural. Mas, nessa minha última visita, confesso que não consegui ficar lá por muito tempo, visto que a infestação do ar tornou a permanência no local completamente impossível, isso em falar na coloração da água, que está cada vez mais escura. O que não entendo é o fato de a população de Alpinópolis pagar uma fortuna pelo tratamento do esgoto da cidade – são mais de 90% do valor da conta de água – e a Gruta continuar poluída”, desabafou.

A PREFEITURA

A prefeitura vem esclarecer a reclamação da cidadã que prefere não se identificar sobre a reclamação da situação de abandono da região da gruta, que, desde sempre o esgoto caiu na gruta de Alpinópolis, em maiores ou menores quantidades, porém sempre foi despejado.

“O tratamento de esgoto é a solução para esse problema. A Prefeitura tem conhecimento que uma das elevatórias ficou um período sem funcionar e providências que cabiam ao município foram tomadas”, afirmou a assessoria jurídica da prefeitura.

Ainda conforme a administração municipal, a Estação de Tratamento de Esgoto encontra-se em pleno funcionamento, conforme visita realizada por uma equipe da prefeitura no dia 12 de março de 2019.

“Também em visita realizada à gruta, não foi encontrado nada parecido com a reclamação da cidadã, que prefere não se identificar, conforme pode ser constatado através de vídeos e fotos enviados pela prefeitura à redação do jornal. Não temos conhecimento de panfletos distribuídos na cidade a respeito desse assunto e também não foi feita nenhuma reclamação aos órgãos competentes. Assim, pedimos aos cidadãos que façam reclamações perante a prefeitura e junto ao conselho de saneamento básico do município, não usando redes sociais, para evitar fakenews e que pessoas com má intenção não possam usar de um assunto tão sério para fazer política”, alertou a assessoria.

A prefeitura salientou e esclareceu que, no mesmo dia foram visitados diversos pontos de mananciais da cidade onde era despejado esgoto, em tempos atrás e após aproximadamente dois anos de início do tratamento, puderam encontrar vida nessas águas, inclusive com a presença de peixes.

A COPASA

A Copasa reiterou a informação da prefeitura alegando que há dois anos fez a Estação de Tratamentos e que não existe mais problema de esgotos na gruta. “Se tiver algum resto de esgoto poluindo a gruta ainda está dentro do processo de limpeza. Não existe mais o despejo de esgoto na gruta. E por se tratar de um local turístico a responsabilidade é da administração pública. E pelo que sabemos está tudo em ordem”, afirmou o gerente distrital da Copasa, Flávio Bócoli.

Fonte: Folha da Manhã

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