Corrupção que maltrata nossa cidade, nosso estado, nosso país

ventania_corrupçãoUm das declarações mais polêmicas da famigerada Operação Lava-Jato foi a afirmação do advogado do lobista Fernando Baiano de que no Brasil “não se faz obra pública sem acerto”. Para que o leitor fique esclarecido, o termo “acerto” significa pagamento de propina. O povo brasileiro precisa analisar friamente, longe dos sensacionalismos midiáticos, esta bombástica manifestação e ponderar se a mesma é totalmente verdadeira, parcialmente verdadeira, se foi feita apenas para justificar as irregularidades praticadas pelo cliente do dito advogado ou se todas as hipóteses são cabíveis. Seja qual for a resposta, o certo é que o país precisa estender a sua indignação com a rapinagem na Petrobrás, a maior estatal brasileira, para os pequenos assaltos cometidos aos cofres públicos em pequenas localidades, como a nossa, que acabam sendo aceitos passivamente. Parece que a tal da cultura da corrupção, apoiada em motes malditos como “todo mundo que entra lá rouba”, “rouba, mas faz” ou “na política é assim mesmo”, entrou definitivamente para a normalidade e em Alpinópolis não é diferente.

Se essa cultura da corrupção está impregnada na administração pública é urgente reavaliar as estruturas e o funcionamento da máquina pública em todos os poderes e em todas as instâncias. Alpinópolis é uma pequena localidade entre os 5.570 municípios brasileiros, responsável por administrar um orçamento modesto, que gira em torno de R$ 30 milhões anuais, para servir uma população de 20 mil habitantes. Somos uma cidade pobre desde a emancipação de São José da Barra, ocorrida em 1995, portanto totalmente dependente de repasses do Governo Federal, seja de transferências constitucionais, programas ou emendas parlamentares. Segundo uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a corrupção consome cerca de 10% das verbas  federais recebidas pelos municípios brasileiros. Isso sem contar o montante que é mal gasto em ações sem planejamento e desnecessárias.

Mas, focando unicamente no tema “corrupção”,  seria possível imaginar quanto de fato  já foi consumido até hoje em Alpinópolis por essa maldita prática? Qual a proporção de prejuízos diretos e indiretos que isso já causou à população alpinopolense? Essas perguntas ocultam números que, talvez, jamais sejam descortinados. Fato é que a corrupção por aqui, assim como em todo o Brasil, provavelmente abocanha boa parte do dinheiro que entra em nossos cofres públicos. Isso deixa (ou pelo menos deveria deixar) as pessoas indignadas. Muito indignadas.

Porém, esse mesmo cidadão que expressa perplexidade diante dos grandes desvios de dinheiro nem sempre se revolta com as velhacarias que ocorrem dentro da administração local, como o jogo de favores executado no setor de saúde, os favorecimentos pessoais utilizando maquinário público, o apadrinhamento político no quadro de funcionários ou mesmo a jogada daquele funcionário que “cria dificuldades para vender facilidades” visando retribuições eleitoreiras. O alpinopolense precisa entender que esta cultura de corrupção tem que ser combatida em todas as frentes, com a punição rigorosa dos grandes fraudadores, mas também com a rejeição inequívoca e a denúncia da imoralidade corriqueira que acontece em nossa cidade. É preciso cobrar transparência nas ações e gastos públicos, mas parece que por aqui isso não é levado muito a sério pelos governantes, bastando lembrar que, há bem pouco tempo, houve uma manobra para impedir que o prefeito fosse investigado por uma suposta evidência de superfaturamento na compra de massa asfáltica e irregularidades na contratação de caminhões e máquinas. A Comissão Especial de Inquérito (CEI), que deveria esclarecer os fatos, simplesmente foi “enterrada” sem ao menos dar real início às apurações. Uma vergonha.

Chegamos a quase desanimar quando ficamos sabendo que o próprio ministro da Justiça deu uma declaração apática dizendo que “vivemos em uma sociedade onde até o síndico de prédio superfatura quando compra o capacho”. É doloroso ouvir, tanto do advogado do acusado como do ministro, afirmações conformistas de que a corrupção é cultural no país. Sabemos que existe, sim, um esquema perverso de preservação do poder por meio de alianças políticas espúrias, negociação de cargos e cabide de empregos, corrupção institucionalizada nas relações entre o poder público e seus fornecedores. Não podemos aceitar que os protagonistas destas manobras nojentas clamem para si a posição de vítimas, como temos visto por aqui e no resto do país. Nem aturar o cidadão que compactua com as pequenas falcatruas sob o pretexto de que não há outro jeito. Vou crer até o fim que há, sim. Tem que haver.

Emerson Alves – Alpinópolis/MG

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