Como a construção da Usina de Furnas mudou a história de Alpinópolis

A Usina Hidrelétrica de Furnas, localizada no curso médio do Rio Grande, no trecho denominado Corredeiras das Furnas, entre os municípios de São José da Barra e São João Batista do Glória, completou 56 anos no último dia 4 de setembro. A construção do reservatório desapropriou aproximadamente cinco mil propriedades e inundou cerca de 500 mil hectares agricultáveis, o que causou grande impacto na região Sul/Sudoeste de Minas, onde se encontra Alpinópolis.

Entre 1955 e 1957 a população alpinopolense se aproximava de 12 mil habitantes e a cidade tinha sérios problemas a resolver: água, esgoto, energia elétrica, estradas. A economia do município, segundo registro da Prefeitura Municipal, girava em torno da agropecuária, uma pequena fábrica de laticínios e oficinas de trabalho. Havia 11 automóveis – quase todos utilitários a serviço dos fazendeiros – e 32 caminhões que buscavam dinheiro fora. O povo, acostumado com as dificuldades, já não alimentava esperanças em melhoramentos, a não ser que algo de extraordinário pudesse ocorrer no município. E, para sorte de todos, ocorreu.

Juscelino Kubitschek, na época governador de Minas Gerais, sobrevoava o Rio Grande fazendo levantamentos para o cumprimento de duas metas de sua campanha: Energia e Transporte. Ele ficou empolgado com a curva e o estreitamento do rio na altura da corredeira e, dizem, daí surgiu ideia da localização da futura Usina de Furnas. A ideia amadureceu e a central elétrica foi projetada quando ele ainda era governador. Eleito presidente, JK não perdeu tempo e assinou a papelada para início das obras.

Alguns alpinopolenses, entre os quais estava José Iglair Lopes, autor do livro História de Alpinópolis, relataram que, durante uma pescaria, encontraram, nessa época, as margens do rio demarcadas, no entanto sem saber o que estava para acontecer. O ano era 1956 e o grupo de amigos estava no rancho do Zico do Assad, próximo ao local conhecido como Salto do Dr. Alberto, situado na altura do km 311 da MG-050, nas imediações de onde atualmente está a ponte do Turvo. Esse ponto está, hoje em dia, completamente submerso na represa.

Praça Matriz de Alpinópolis – 1957

Em fevereiro de 1957 o governo organizou a companhia para dar início às obras, na época, o maior projeto de continente e o terceiro maior do mundo. No entanto, era forte a oposição ao empreendimento, principalmente vinda da classe política mineira. Os políticos da região, liderados pelo deputado Geraldo Freire, logo protestaram dizendo que “Minas não poderia ser a caixa d’água do Brasil”. Contudo, ainda naquele ano, chegaram os primeiros acampamentos ao local da corredeira, exatamente onde, havia pouco tempo, os amigos alpinopolenses faziam sua pescaria sem saber que era a última vez.

José Iglair conta que, numa quinta-feira à noite, dia 15 de setembro de 1960, quando ele e seu estimado amigo Zé do Nelson passavam perto do Cartório do 2º Ofício de Notas de Alpinópolis, notaram as luzes do estabelecimento acesas e desconfiaram que algo importante poderia estar acontecendo. Nesse instante, o cartorário Geraldo Brasileiro (Dengo) convidou os dois companheiros para ouvir e assinar, como testemunhas, a escritura de Furnas, que em seu cabeçalho trazia os seguintes dizeres: “Escritura pública de desapropriação com indenização fixada por convenção amigável, que entre si fazem, de um lado, como outorgante expropriada, a Mitra Diocesana de Guaxupé; e de outro, como outorgada expropriante, a Central Elétrica de Furnas S/A, com a interveniência da Prefeitura Municipal de Alpinópolis”.

O documento é longo e detalhado e, no início, cita os nomes dos doadores das terras, a começar por Manoel Justiniano dos Reis, filho de Dona Indá, e segue amarrando os compromissos entre município e igreja.

O negócio de Furnas com a Mitra Diocesana de Guaxupé e Prefeitura de Alpinópolis, conforme escriturado, girou em torno de uma área de aproximadamente 67 alqueires, destinada ao canteiro de obras e acampamento. Para a formação do lago, entretanto, a negociação entre Furnas e proprietários particulares, por conclusão aritmética, atingiu uma área de 2.481,21 alqueires. O total de perda de terras alpinopolenses alcançou 2.548,21 alqueires, o equivalente a 74 km², conversão feita de acordo com os dados publicados pelo IBGE.

As intervenções tiveram início e, em ritmo acelerado, máquinas e caminhões, trabalhando dia e noite, transformavam o acampamento num grande canteiro de obras. Os habitantes da região, acostumados a interromper o serviço para enrolar um cigarro de palha, estavam assustados com as mudanças que viam, passando a acreditar que a água ia mesmo atingir as marcas encontradas pasto afora. Apesar dessas preocupações, o povo da Ventania aguardava com muita esperança os prometidos benefícios da energia elétrica e da estrada asfaltada.

As atividades promoveram uma mudança brusca e repentina em Alpinópolis. Seu povo pacato e religioso foi obrigado a adaptar-se à convivência com uma população flutuante – cerca de sete mil empregados passaram pela região só no ano de 1961 – que trazia consigo um ambiente mesclado de brigas, meretrício e crimes. Por outro lado, Alpinópolis saia do anonimato e estampava jornais, revistas e mapas como município sede da maior usina hidrelétrica do Brasil.

Numa época difícil, o município foi contemplado com os benefícios das metas Energia e Transporte do governo JK. Muito dessas conquistas se deve ao empenho político de cidadãos ilustres – em especial José de Carvalho Faria (Dr. Zezé), padre Ubirajara Cabral e o então prefeito Osvaldo Américo dos Reis – que interferiram junto às autoridades de Furnas, no Rio de Janeiro, para que fosse mudado o curso da estrada projetada, que originalmente passaria pela Vargem dos Pinheiros, Itapiché, Carmo do Rio Claro. O desvio, que redesenhou o trajeto e fez com que a rodovia passasse por Alpinópolis, é considerado fator importante para o desenvolvimento local, impedindo que a cidade ficasse isolada, sem acesso direto à malha viária regional.

Do binômio desenvolvimentista de JK, a ENERGIA chegou a Alpinópolis no dia 4 de dezembro de 1960, à tarde, quando a cidade foi iluminada com eletricidade vinda de Peixotos, justamente por meio das Centrais Elétricas de Furnas S/A. Já no quesito TRANSPORTE, nos anos de 1973 e 1974 foi feito o serviço de preparação do trecho entre o trevo de Furnas e Alpinópolis. Em maio de 1975 o asfalto chegou à cidade.

Quase 20 anos depois, a Lei Estadual 12.132/96 deu o nome de Rodovia Osvaldo Américo dos Reis ao trecho que vai do trevo de Furnas até Alpinópolis, ou seja, o segmento da MG-446 que fica entre a MG-050 e a BR-265.

Referência Bibliográfica: LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

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