ASSOPROCULTURAL – Um ideal de promoção da cidadania através da arte

“A cultura é a mais fiel e democrática ferramenta humana para criar outros mundos possíveis”

É possível que muitas ações sociais comecem de maneira semelhante: pessoas  insatisfeitas com uma situação que se unem para mudá-la e construir algo melhor. Em Alpinópolis não foi diferente e a semente do trabalho da Associação de Promoção do Desenvolvimento e Preservação Cultural de Alpinópolis – Assoprocultural  foi lançada e brotou exatamente assim. Um grupo de amigos, com o objetivo comum de interferir no quadro social da cidade, resolveu tomar atitude e ser aquela mudança desejada há tempos. Depois de muita conversa e planejamento havia chegado a hora de partir para prática e colocar, de fato, a mão na massa.

O grupo concordava que havia uma série de instâncias que formavam o cenário estrutural da cidade e que, se quisesse mudá-lo, deveria estabelecer ações em cada uma particularmente. Foi quando tiveram início, no ano de 2010, acanhados movimentos ambientais e sindicais que foram a base de todo o trabalho que viria a ser realizado.

COMO TUDO COMEÇOU

Nessa conjuntura, os ativistas passaram a sentir também a necessidade de contribuir para o desenvolvimento da cultura regional. Foi quando houve o encontro ideológico de Ronaldo Oliveira, ex-extrator de pedras e portador de silicose e Francisco Jerônimo da Silva, popularmente conhecido como Quito que, indignados com a situação trabalhista, política e social da cidade trataram de agir e fazer acontecer. Eram então lançadas as sementes de uma nobre ação que frutificaria em breve. O processo tomou fôlego com a chegada de uma figura fundamental que serviu como ponte para ligar outro grupo aos dois citados moradores do Santos Reis: Donizete Mendonça.

Assim, iniciou-se um processo de diálogo com os moradores do bairro e de visitas periódicas às residências. Ao notar que uma igreja abandonada do local servia como ponto de consumo e venda de drogas, o grupo despertou para a urgência da tomada de medidas combativas a estes males sociais. Chegou-se então ao consenso de que somente a educação e a cultura poderiam conduzir aquelas pessoa a um câmbio social estrutural. Com autorização da Paróquia de São Sebastião, houve um mutirão para promover a reforma daquela igreja que serviria de quartel general para as ações planejadas pelo grupo que se solidificava.

Reinauguração da Igreja Santos Reis

Começados os trabalhos, ainda de forma rudimentar, foi constatado pelo grupo que as crianças do bairro apresentavam excesso de tempo ocioso e que eram vítimas de total descaso do poder público, o que as tornava altamente suscetíveis aos perigos da rua. Houve então a criação de um grupo que se encarregou de elaborar medidas sócio-culturais que chegassem até os mais necessitados e que interferisse, de forma impactante, em sua formação.

O GRUPO DE TEATRO MEMÓRIA VIVA

De início empreendeu-se a estruturação de um projeto teatral resultando na criação do grupo Memória Viva. O nome veio através do entendimento de que, além da ferramenta “arte” como transformadora social, a ação poderia proporcionar um resgate da singularidade cultural e das raízes do município. O teatro apenas começou a funcionar, de fato, no começo de 2012 com os preparativos para a peça Paixão de Cristo, a primeira que o grupo realizou.

Grupo Teatral Memória Viva

FUNDAÇÃO DA ASSOPROCULTURAL

A associação foi legalmente instalada em 23 de janeiro de 2012 e batizada como Assoprocultural, nome sugerido pelo advogado e militante dos direitos humanos Paulo César da Fonseca. Segundo o jurista o objetivo proposto levaria cultura a toda cidade, como uma lufada de ar a ventilar a Ventania, daí a referência ao verbo “assoprar”. No final do ano, especificamente no mês de dezembro, iniciaram-se as aulas de violão ministradas pelo professor de História Marcos Magalhães, atividade que conta com a participação de mais de trinta crianças e adolescentes.

Reunião inaugural da Assoprocultural

ATIVIDADES

Ainda em 2012 foi inaugurado o Cantinho da Criança, um espaço idealizado por Rogério Bonílio, visando promover encontros semanais com crianças de até 10 anos para brincadeiras e atividades pedagógicas. Mais recentemente a associação deu um grande passo para cumprir seu papel social iniciando práticas esportivas através do voluntariado de David Lira, treinador de MMA e Muay Thai que, generosamente, ofereceu o espaço de sua academia para atender crianças carentes que são iniciadas nos princípios fundamentais da luta corporal. Outro voluntariado importante que veio somar ao grupo foram as aulas de canto de Luiz Winter, músico de Carmo do Rio Claro, atividade que possibilitou a formação de um coral.

Aula de violão ministrada pelo professor Marcos Magalhães

A associação já conta com um calendário fixo de atividades culturais, como por exemplo o Dia das Mães, no qual as crianças, em companhia de adultos e um violonista, saem em cortejo a fazer serenatas para as mães do bairro. Há também a Festa Junina com típica quadrilha e apresentações de músicos do bairro, a comemoração com atividades lúdicas do Dia das Crianças e as festas de final de ano.

Serenata do Dia das Mães

 

ASSOPROCULTURAL NA COMUNIDADE

Donizete Mendonça

Para Donizete Mendonça o trabalho realizado na Assoprocultural tem como base a estruturação da família através de ações culturais, educativas e esportivas. Considera a disposição e a tomada de iniciativa fundamentais para o desenvolvimento de um trabalho dessa envergadura e reclama do vácuo de poder existente em razão da falta de aplicação de políticas públicas em vários segmentos comunitários de Alpinópolis. “Se existe a intenção de mudar a sociedade para melhor, a primeira coisa é o investimento na família e, por meio da educação, da cultura e do esporte é possível estruturar o núcleo familiar. Para realizar um trabalho como esse que começamos, além da coragem e disposição de colocar a mão na massa, há que ter um senso de responsabilidade muito grande, pois esse tipo de ação social uma vez iniciada não pode ser interrompida. O jovem ou a criança que se envolve em projetos dessa natureza, muitas vezes, está em situação de risco social e tem ali, no local da atividade escolhida, o único momento onde se sente incluído socialmente e se interrompemos isso o prejuízo psicológico e afetivo é muito grande. Temos perfeita consciência disso e responsabilidade com o compromisso que assumimos, tanto é que procuramos não estar vinculados ao poder público para não correr o risco de tornar o projeto dependente de prefeitura e nem de outra esfera de governo. É claro que já recebemos auxilio governamental em algumas situações, assim como de outras associações como a Nossa Senhora do Rosário por exemplo, o que tornou possível a seqüência das atividades, mas nos mantemos sempre com autonomia. Outra coisa que não podemos deixar de mencionar é a ajuda recebida do comércio e de pessoas com espírito de cidadania, que foram e são de fundamental importância para seguirmos buscando nosso objetivo. Como já dito, o objetivo é estruturar a família e para isso é necessário promover o cidadão através dessas ações propostas pela Assoprocultural”, afirmou o ativista.

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