Alpinópolis… Uma cidade à mercê do crime?

EDITORIAL

Já foi o tempo em que a violência era característica apenas das grandes cidades do país. Um levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que a taxa de homicídios em pequenos municípios cresceu 52,2% nos últimos 10 anos. Enquanto isso, em sentido contrário, nas grandes cidades houve uma queda de 26,9% nos índices de assassinatos. Nas cidades médias, cujas populações variam entre 100 e 500 mil habitantes, a taxa cresceu 7,6%. Fato é que já não é necessário consultar pesquisas de institutos especializados para perceber isso, haja vista que a realidade tem se jogado nua e crua em nossa frente. Aqui em Alpinópolis, por exemplo, apenas nos primeiros sete meses de 2014 foram registrados cinco casos de homicídio, o que dá uma média de um assassinato a cada 42 dias. Isso sem contar os demais crimes violentos como assaltos a mão armada, espancamentos e estupros.

Não é muito difícil achar explicações para essa interiorização da violência. O crime organizado tem encontrado cada vez mais resistência nos grandes centros e vem procurando lugares convenientemente adequados a seus padrões para se alojar. O carro chefe das principais facções criminosas do país, o tráfico de drogas, tem buscado alternativas para manter seu lucrativo comércio ilegal em ascensão e sua mais eficiente artimanha é transferir estrategicamente frentes para cidades pequenas. Mas o que levaria os chefões das organizações a se decidirem por determinadas localidades? Por que algumas cidades são escolhidas e outras não? As razões são muitas, mas certamente uma das principais é a facilidade em arregimentar pessoas da própria localidade para servir às quadrilhas. O próprio nome já diz: CRIME ORGANIZADO. E são de fato organizados, basta ver que agem com planejamento, estudam estatísticas, leis, documentos públicos e características dos locais onde pretendem instalar-se. Uma das diretrizes utilizadas é o levantamento e verificação de cidades em que o poder público investe pouco em esporte, lazer e cultura. Essas são as mais apropriadas, pois é possível encontrar grande número de crianças e adolescentes ociosos, o que facilita muito o aliciamento e a conseqüente aquisição tanto de mão de obra necessária quanto de público consumidor para o nefasto negócio prosperar.

Um município como Alpinópolis parece ser um prato cheio para os abutres do crime organizado. De um lugar onde a prefeitura gasta menos de 1% de seu orçamento em ações que envolvem cultura, esporte e lazer, não se pode esperar muita relutância contra essas investidas perversas da delinqüência. Em 2013 havia uma previsão orçamentária de quase R$ 632 mil para aplicação nessas atividades, porém apenas R$ 307 mil foram de fato empregados. Só a título de comparação, a Prefeitura Municipal gastou somente com pagamento de horas de máquina/aluguel de caminhões e compra de massa asfáltica (objetos daquela famigerada CPI que parece ter acabado “em pizza”) cerca de R$ 700 mil no mesmo período, ou seja, mais que o dobro que em atividades culturais, esportivas e de lazer.

Apesar dos pesares, seria injusto culpar exclusivamente o poder público pelo aumento da violência que vem assolando nossa cidade, mas seguramente a destinação adequada de recursos orçamentários para ações que podem impedir que o crime se propague dentro da comunidade já seria metade da caminhada para acabar com essa situação terrível que vivemos. Podemos e devemos exigir que o percentual de investimento nessas áreas estratégicas seja aumentado, mas até lá teremos que nos virar com o que oferece a Lei Orçamentária 2014 que está em vigência. Exijamos então que, pelo menos, o montante que está previsto para o financiamento dessas atividades seja aplicado integralmente nelas.

Infelizmente sentimos muito em informar ao leitor que já começamos mal, a julgar que estamos no meio do ano e, até agora, foram investidos menos de R$ 195 mil nessas ações. Considerando que a Prefeitura Municipal já teve um gasto geral de quase R$ 16 milhões, isso significa que o setor foi responsável por magros 1,2% do total de despesas pagas. Pelo andar da carruagem podemos pressentir que vamos fechar o ano de 2014 sem cumprir o que está previsto no orçamento municipal e, mais uma vez, deixar nossa população, principalmente as crianças e adolescentes, sem os devidos investimentos nessa área vital para o desenvolvimento social. Tomara que este nosso desanimador pressentimento esteja errado.

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