A tradicional Festa do Reinado de Alpinópolis

Segundo conta o historiador José Iglair Lopes, as festividades de Natal, Ano Novo, Semana Santa e Festas Juninas, são preservadas em Ventania desde 1828, quando foi fundada a Irmandade Nossa Senhora do Rosário. Notadamente no final do ano, o folclore e a religiosidade são manifestados com muito simbolismo pelos ternos de Congo e Moçambique, Pastores, Pastorinhas e a Cavalhada.

De acordo com o também historiador Juliano Pereira de Souza, é inegável que a mais tradicional festa de Alpinópolis, a Festa do Reinado, sofreu modificações e adaptações desde sua criação, porém sem perder a essência de unir a população, apesar das diferenças econômicas e culturais de quem dela participa.

IRMANDADE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

A Irmandade Nossa Senhora do Rosário foi fundada por João Alves de Figueiredo, genro de D. Indá, com a finalidade de organizar a Festa do Reinado no arraial. A Capela do Rosário, possivelmente construída também em 1828, foi erigida ao fundo do Largo (diante de onde hoje está a casa do Léo do Posto) com a frente voltada para a antiga Capela de São Sebastião, sendo erguido um cruzeiro entre as duas igrejas.

Festa do Reinado – 1916

Era nesse espaço, em volta do tal cruzeiro, que ocorriam os antigos festejos. A irmandade foi composta, durante toda sua existência, por nomes ilustres da história alpinopolense como José Jacinto Ribeiro, Antônio Gonçalves de Moraes, Quirino dos Reis, João Francisco de Faria e Justino José Moreira.

A FESTA

A Festa do Reinado faz parte da história de Alpinópolis. Tradicionalmente a abertura oficial do evento ocorre no dia 24 de dezembro com a Missa do Galo, quando alguns ternos de Congo já saem em cortejo pela cidade após a cerimônia. São quatro dias de uma intensa festança que concentra um dos maiores números de congadeiros e moçambiqueiros do estado de Minas Gerais. São sete ternos de Congo e três de Moçambique que envolvem mais de 30 pessoas na coordenação.

Existem antigas regras e rituais que norteiam a realização da festa, como as procissões, as passagens das coroas, a chamada dos irmãos de mesa com a reza do terço, a escolta dos reis e rainhas e o levantamento dos mastros. Todos os dias, exceto o 25, são servidos almoços, jantares e “agrados” para os componentes dos ternos.  A tradição de alimentar os participantes da festa é um costume muito antigo na cidade. O festeiro, como é chamado o ofertante do banquete, geralmente é motivado a fazê-lo em função do pagamento de uma promessa ou mesmo por amor ao folclore e à religiosidade.

Almoço de Congo – 2005

Não se sabe, com exatidão, quando os ternos foram fundados e passaram a desfilar pelas ruas do povoado. Porém, o testamento de João Alves de Figueiredo, falecido em 1896, menciona que existiam hábitos (trajes religiosos) para os membros da irmandade, sendo um possível indicativo de que alguns destes grupos já poderiam estar formados. “Declaro que, falecendo eu, meu corpo será envolto em hábito de qualquer das irmandades que sou irmão remido, acompanhado do pároco do lugar (…)”.

HISTÓRICO DOS TERNOS

Antigas anotações, feitas pelo memorialista Sebastião Cardoso, o Tiãozinho da Sá Máxima, já davam conta dos pontos básicos que diferenciavam o Congado do Moçambique. O primeiro seria a indumentária, ou seja, as vestimentas usadas pelos participantes. Outro era relativo à hierarquia existente no Reinado e, um terceiro, referente ao instrumental utilizado por cada uma.

Terno Verde e Amarelo – 1967

Nessa época os Congados, de acordo com Cardoso, usavam blusas de cor rosa, calças brancas e capacetes ornamentados com aljofres e espelhos. O instrumental utilizado era composto por caixas, triângulos, sanfonas, adufes, reco-recos, chocalhos e violas.

Já os Moçambiques vestiam saia branca, lenço na cabeça e fita a tiracolo. Os instrumentos usados eram apenas caixas e os participantes complementavam a percussão com chocalhos presos aos pés.

O grande capitão Baltazar Vicente, falecido em 2017 e que comandou o Terno Verde e Amarelo por longos anos, explicou, em entrevista concedida em 2012, que antigamente os ternos não eram diferenciados por cores, como são na atualidade. Esclareceu ainda que, em tempos ainda mais distantes, os congadeiros não usavam chapéus e sim capacetes enfeitados.

Capitão Baltazar Vicente

Tais informações são condizentes com os relatos do Tiãozinho da Sá Máxima. Conforme esse memorialista, os ternos não eram divididos por cores e sim pela denominação dos antigos capitães ou pelo nome das comunidades onde tinham surgido.

“Tanto o Congado como o Moçambique são divididos em ternos compostos por grupos de 15 a 20 homens. Cada um tem sua denominação: 1º – Terno do Coronel: A origem desse nome se prende a um velho capitão, de nome Antônio Cornélio, que dirigiu o aludido terno no início do século. 2º – Terno da Cachoeira: Também conhecido como Terno do Bastião Chica, o nome está ligado ao antigo capitão chamado Sebastião Chica. 3º – Terno do Tijuco Preto: Também conhecido como Terno do Mané Luiz, já que foi esse preto velho, que faleceu com aproximadamente 100 anos de idade, que comandou o terno por mais de meio século. 4º – Terno das Areias: Dirigido por um antigo capitão de nome Máximo das Areias. Finalmente o Terno do João Eva e o Terno do Antônio Valeriano, sendo ambos da categoria Moçambique.”

Terno Branco – 1968

Somente no final dos anos 70 é que os ternos passaram a usar uniformes de diferentes cores e as novas denominações foram sendo dadas. O Terno da Cachoeira é, atualmente, o Terno Verde e Amarelo e o Terno do Tijuco Preto é, hoje em dia, o Terno Branco, possivelmente o mais antigo do Reinado. O Terno das Areias agora é o Terno Vermelho e o Terno do Coronel, curiosamente, mudou de categoria e é, nos dias de hoje, o Terno de Moçambique do Antônio Belmiro. O Terno de Moçambique do João Eva, ainda na década de 70, passou a se chamar Terno do Seu Augusto Belizário e é o atual Terno do Léo, comandado por Leonaldo Cândido da Silveira, o Léo do Posto. O terno do Antônio Valeriano não existe mais.

Terno Augusto Belizário – 1977

O Terno Azul, o Terno Rosa, o Terno Maravilha e o Moçambique do Tino não foram citados no texto do Tiãozinho da Sá Máxima pois, quando foi redigido, eles ainda não tinham sido criados. O Terno Azul foi fundado por Pedro Borges e foi conduzido, durante muitos anos, por João Américo de Assis, estando hoje sob a responsabilidade de Rodrigo Borges, neto do primeiro capitão. O Terno Rosa foi instituído pelo capitão Antônio Moreno, passou pelas mãos de Benedito Cesário e, atualmente, é dirigido pelo capitão Baltazar Evaristo Lemos. O Terno Maravilha é o mais jovem de todos, foi formado em 2017 e, desde então, é capitaneado por Elton Vítor Reis. O Moçambique do Tino surgiu com nome de Terno do Coimbra e, há 37 anos, foi assumido por Marcos Roberto Borges de Paula, o Tino da Maria Borges, que até hoje é seu capitão.

A CAVALHADA

A Cavalhada, que apresenta um regimento de cavalaria com aproximadamente 200 cavaleiros, devidamente uniformizados, representa um exército em pé de guerra, com animais especialmente escolhidos e caprichosamente enfeitados. Essa tradição é mantida em Alpinópolis há mais de um século e já contou com habilidosos capitães como Sudário Teófilo de Castro, Nóe Moreira da Silva, Rômulo Copooni, entre outros.

Cavalhada – 1971

Segundo explica Hilda Mendonça, escritora e folclorista alpinopolense, as Cavalhadas foram introduzidas no tempo do Brasil Colônia, sendo a figura central uma representação do imperador Carlos Magno, conhecido como “O Rei Cristão”. A finalidade seria transmitir uma lição de que o bem (cristãos) vence o mal (mouros).

 HIERARQUIA DO REINADO

Na questão da hierarquia, importante saber que existem algumas figuras representativas que dirigem a festa. Essas pessoas exercem as funções, para as quais são nomeadas, enquanto viverem. A estrutura, por ordem de importância, é assim composta:

  • Governador Geral: É a maior autoridade do Reinado. Usa, como uniforme de gala, uma faixa a tiracolo bordada de aljofres, fitas de diversas cores e carrega um bastão adereçado com medalhas prateadas e douradas. Na lapela ostenta um distintivo, com o dístico “Governador Geral”, que, geralmente, é herdado de seus antecessores.
  • 1º e 2º Governadores: São os imediatos do Governador Geral e usam, somente, um laço de fita na lapela do paletó.
  • Meirinho Geral: É subordinado ao 1º Governador, de quem recebe as ordens. A antiga denominação deste cargo era 3º Governador, porém essa nomenclatura não existe mais.
Terno Rosa – 1973

REIS E RAINHAS

A função, tanto do Congado como do Moçambique, é conduzir os reis e rainhas de suas residências até as igrejas para depositarem suas esmolas e cumprirem o pagamento de promessas. Durante o trajeto, de ida e volta, os capitães dos ternos cantam versos que são repetidos pelos demais integrantes.

São três as categorias de reis e rainhas do Reinado:

  • REI/RAINHA FESTEIRO: São aqueles que oferecem os banquetes aos ternos.
  • REI/RAINHA DE PROMESSA: São aqueles que, por alguma graça alcançada, pagam promessas e percorrem as ruas com os ternos.
  • REI/RAINHA PERPÉTUO: São aqueles que, por alguma graça alcançada, permanecem o resto da vida sendo conduzidos pelos ternos até a igreja em que são devotos no dia da festa.
Terno Amarelo – 1981

OS TRÊS SANTOS DO NATAL

Na tradição local, são comemorados os santos e santas venerados em três das mais antigas igrejas de Alpinópolis, cada um em uma data específica, sendo Nossa Senhora do Rosário no dia 26, Santa Efigênia no dia 27 e São Benedito no dia 28.

No dia 25, após a Cavalhada percorrer seu trajeto pela cidade e chegar ao Cruzeiro, fincado no bairro São Benedito, o Terno Verde e Amarelo e o Moçambique do Antônio Belmiro levantam o mastro na Igreja de Santa Efigênia e também se rumam para lá. É também neste local que os demais ternos, tanto de Congo quanto de Moçambique, se reúnem e, em procissão, descem todos juntos até a Igreja de São Benedito, onde igualmente levantam o mastro. Em seguida, ainda em procissão, os ternos descem para a Igreja Matriz e aí, cada um, recebe a benção em sua respectiva bandeira. Logo vão para a Igreja do Rosário, onde o mastro também é levantado e são feitas as orações no templo.

Terno Vermelho – 1996

No dia 26, dia de Nossa Senhora do Rosário, os ternos fazem suas orações, participam dos almoços, pegam seus reis e rainhas e os conduzem até a Igreja do Rosário. Depois levam cada um de volta a sua residência e, em seguida, apanham os festeiros do dia e também os levam à mesma igreja. Ao final do dia, fazem o encerramento com as apresentações e a reza do terço.

Moçambique do Tino – 2013

No dia 27, dia de Santa Efigênia, o ritual é parecido. Os ternos fazem suas orações, participam dos almoços, pegam seus reis e rainhas e os conduzem até a Igreja de Santa Efigênia. Depois levam cada um de volta a sua residência e, em seguida, apanham os festeiros do dia e também os levam à mesma igreja. Ao final do dia, fazem o encerramento com as apresentações e o terço e, por fim, levam os festeiros aos jantares.

Terno Maravilha – 2018

No dia 28, dia de São Benedito, último dia da festa, o ritual é igualmente parecido. Os ternos fazem suas orações, participam dos almoços, pegam seus reis e rainhas e os conduzem até a Igreja de São Benedito. Depois levam cada um de volta a sua residência e, em seguida, apanham os festeiros do dia e também os levam à mesma igreja. Ao final do dia, após o encerramento com as apresentações, são feitas as homenagens e premiações, geralmente com presença de grande público e diversas autoridades.

Terno Azul – 2012

OS BALUARTES DO REINADO

Jamais pode ser esquecido que a tradição sempre se manteve pela dedicação de pessoas abnegadas e voltadas à cultura popular. Além dos já citados, cabe lembrar os nomes de José Herculano Freire (Pilúcio), Vicente Vilela Lemos, José Custódio, Dionésio Gonçalves, Aurora Magnólia de Morais, Alípio Pio, José Borges de Paula (Deco), Afonso da Silva Leite, Tião Maia, Geraldo Freire (Geraldo do Pilúcio), Maria Borges de Paula, Antônio Américo (Boca Seca), João Belmiro, José Vicente da Silva (Batatinha), José Vieira, Benedito Natalino Rodrigues Duarte (Taé Carioca), entre tantos outros.

Maria Borges de Paula

PANDEMIA E TRADIÇÃO

Neste final de 2020, um silêncio angustiante tomou conta das ruas de Alpinópolis entre os dias 25 e 28 de dezembro. Em virtude da pandemia causada pelo novo coronavírus, a Irmandade Nossa Senhora do Rosário, acertadamente, cancelou a 192ª Festa do Reinado. Com saudades do batido da caixa, do toque da sanfona e do repicar do pandeiro, alguns mais exaltados não resistiram e se puseram a tocar seus instrumentos e cantar os versos em pequenas reuniões realizadas em bares e portas de residências da cidade. Essa inédita ausência do Reinado machucou o coração do alpinopolense.

Curiosamente, essa não foi a primeira vez que uma tradição secular foi rompida em Alpinópolis por conta de um vírus que assustou o mundo. Em 1918, no auge da pandemia da Gripe Espanhola, a Festa de São Sebastião não foi realizada em seu período tradicional, entre 11 e 20 de janeiro. Na época, essa doença ceifou 158 vidas de moradores e o santo, excepcionalmente, foi venerado no dia 23 de fevereiro.

Referências Bibliográficas:

LOPES, José Iglair. História de Alpinópolis: nos séculos XVIII, XIX e XX, até 1983/José Iglair Lopes; colaborador: Dimas Ferreira Lopes. – Belo Horizonte: O Lutador, 2002.

SOUZA, Juliano Pereira de. Ventania, valorizando nosso povo/Juliano Pereira de Souza. – Belo Horizonte: O Lutador, 2020.

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