A morte do Jorginho – Tragédia alpinopolense completa 70 anos

Uma das mais marcantes fatalidades da história de Alpinópolis, que também acabou se convertendo em um dos causos mais contados e conhecidos da cultura popular local, completou 70 anos neste 2020. É uma comovente narrativa de amor —com um desfecho nefasto— que desvela a triste e curta história de um casal apaixonado.

Jorge Abdo Salum, conhecido por Jorginho, de família síria, nascido em 31 de julho de 1913, filho de Nazareth Salum (Názia), homem bom e trabalhador, era um boiadeiro habilidoso. Entendia de gado e sempre percorria a região atrás de um bom negócio. Praticava a religião dos chamados protestantes, sendo membro da Igreja Presbiteriana Independente de Alpinópolis, que há pouco tempo havia sido fundada na cidade por seus familiares. Sua mãe, depois da morte do marido, guardando luto, era vista permanentemente pelas ruas trajando vestes pretas.

Certo dia, em busca de bons negócios, Jorginho cavalgava pelas terras das fazendas Barra Doce, Boa Vista e Sapé, quando apeou em uma propriedade, cujo morador era um turco de costumes rígidos e tradicionais. Seu nome era Agush Esper Kallas, vulgo Akesh Velho, casado com a senhora Barrih Esper Kallas, conhecida como Barrinha. O casal tinha cinco filhos, dentre os quais uma bonita moça chamada Maria.

Naquela oportunidade os dois homens, que trocavam algumas informações sobre o comércio de gado realizado na região, entraram para tomar um café, ao pé do fogão de lenha. Sentado na cozinha, Jorginho viu Maria pela primeira vez, no momento em que ela transitava entre os cômodos da casa. De imediato se encantou com a jovem.  Apesar do passo apertado, caminhando rapidamente —não era costume moça direita ficar se exibindo para rapazes— ela teve tempo de reparar no boiadeiro e, também, se agradou dele. Terminada a prosa, Jorginho foi embora. Mas durante todo o caminho de volta a figura daquela beldade não lhe saiu do pensamento.

Os dias se passaram e o rapaz não conseguia fazer outra coisa a não ser pensar em Maria. Não bastava vê-la novamente, queria estar com ela o tempo todo, queria ser seu marido. Depois de muito matutar, criou coragem e retornou àquela fazenda para pedir a mão da moça em casamento. Dona Barrinha, a mãe, persuadiu o marido e, prontamente, o casal se opôs à realização de tal enlace, já que o pretendente pertencia a outra religião. Assim, Jorginho teve seu pedido negado e foi expulso daquele lar pelos pais e irmãos de sua amada. Maria caiu em profunda tristeza, pois também estava fascinada pelo negociante de gado e desejava, ardentemente, com ele se casar.

Jorginho, no entanto, não se deu por vencido e continuou insistindo com a família, porém sem obter sucesso. Diante das reiteradas recusas, o rapaz decidiu propor uma fuga a Maria. Ela aceitou e, dessa forma, numa noite de lua cheia, lá foi o boiadeiro buscar sua pretendida. Os dois fugiram e, somente pela manhã, a família da jovem percebeu sua ausência. Acharam apenas um bilhete, deixado por ela, dizendo que havia ido embora com o amor de sua vida.

O local escolhido para começarem uma nova vida foi o município de Guaxupé, perto da divisa com o estado de São Paulo. Já nos primeiros dias marcaram a cerimônia e se casaram. Lá viveram por certo tempo. Maria, com saudades da mãe, mandou-lhe uma carta contando as novidades e pedindo notícias dos familiares. Ela respondeu e, assim, foram mantendo correspondência. Mulher astuta que era, Barrinha logo tratou de ludibriar a filha dizendo que tudo estava bem e que ela poderia retornar à cidade, onde seria recebida de braços abertos. Também afirmava que o casal estava perdoado e que os dois poderiam viver suas vidas tranquilamente.

Maria e Jorginho, comovidos, voltaram então para Alpinópolis. Logo o rapaz construiu uma casa provisória, nas imediações do Córrego da Biquinha —hoje Avenida Francisco Rodrigues da Silva— próximo ao sobrado do senhor Aniceto Brasileiro, residência que ficou conhecida na cidade como ‘Sobradinho’.

Mal sabiam os recém-casados que Barrinha e seus outros filhos engendravam um terrível plano para colocar fim à vida de Jorginho. Segundo contam, o Akesh Velho não concordava com a trama para matar o genro, mas sua esposa insistia na ideia da honra ultrajada, sustentando que a família havia sido amaldiçoada por aquela ousada atitude dos novos consortes. Em ato provocativo, Barrinha chegou a colocar um dos seios para fora do vestido e desafiar o filho mais velho, chamado Joudeth, dizendo: “Pelo leite que aqui mamou, você vai mata-lo. Se não o fizer, te tiro a vida, essa que eu mesma te dei”.

Então traçaram o seguinte ardil. O casal seria convidado para almoçar, em um dia de domingo, quando seria feita uma encenação para leva-los a crer que tudo estaria em perfeita harmonia. Ato seguido, pediriam a Jorginho que fosse até uma fazenda vizinha para avaliar algumas cabeças de gado, já que era boiadeiro entendido. Joudeth seguiria pelo mesmo caminho e armaria uma emboscada, perto de uma antiga estrada.

A data escolhida foi o dia 5 de março de 1950. O casal, acomodado em uma montaria, cavalgou rumo à Fazenda Barra Doce. Após o almoço, almejando conquistar a simpatia e confiança dos familiares de Maria, Jorginho atendeu o pedido de ajuda para avaliação do gado e, por volta das 15h30min, beijou a esposa e seguiu para o local indicado. Apressado, o primogênito tratou de chegar logo ao ponto escolhido para a cilada, passando pelo Córrego das Pedras, na localidade rural conhecida como Monjolinho.

Era por volta de 17h quando Jorginho passou pelo lugar onde estava preparada a tocaia. Joudeth, então, saiu de seu esconderijo e disparou com sua arma de fogo, porém errou o alvo e acabou atingindo o cavalo do cunhado. Mesmo ferido, o animal não sucumbiu e prosseguiu em disparada pela estrada, sendo perseguido por Joudeth, que continuou atirando na tentativa de acertar Jorginho. Toda a ação era assistida por um morador das redondezas, chamado Clóvis Candinho, que da porta de sua residência conseguia ver tudo perfeitamente.

A montaria, devido aos ferimentos, naturalmente diminuiu a passada. Dessa forma, Joudeth pôde se aproximar e alvejar Jorginho que, com o impacto do tiro, foi ao chão. Ao lado do cavalo, que também agonizava, o boiadeiro foi alvo de mais duas balas disparadas por seu cunhado e algoz. Ali aconteceu a morte do Jorginho. No local, existe um monumento erguido para lembrar a tragédia, em cuja placa há a inscrição “Aqui, bárbara e traiçoeiramente, assassinaram o jovem Jorginho Salum, em 6-3-50. Homenagem do povo de Alpinópolis”.

Clóvis Candinho, que testemunhou a triste cena, ao ver o assassino batendo em retirada, montou em seu cavalo e foi ver de perto o que, de fato, havia sucedido. No local encontrou apenas um corpo sem vida e viu que se tratava de Jorginho. A notícia se espalhou e, dentro de pouco tempo, outros vizinhos chegaram.

Maria, na casa dos pais, logo ficou sabendo do trágico destino do esposo. Joudeth, por sua vez, já havia retornado e estava desesperado —visivelmente arrependido—, mas já era tarde demais. Rapidamente apanhou algumas roupas e, com o apoio da família, fugiu, tomando rumo incerto.

O cadáver de Jorginho foi levado para a cidade na carroceria de um caminhão. No momento da chegada, uma multidão esperava pelo corpo do pobre boiadeiro. A buzina tocava e as pessoas —muitas chorando— entoavam canções religiosas. O velório aconteceu na residência de sua mãe, situada na Rua Capitão Izac, e foi marcado pelo clima de extrema consternação. O sepultamento ocorreu no dia seguinte. Maria, a viúva, usando um vestido branco, chorava copiosamente e não se conformava com a trágica sina do marido. Apesar de jovem, ela não se casou novamente e faleceu, cerca de 50 anos mais tarde, na cidade de Passos.

As autoridades, no encalço do homicida, depois de muito procurar, o encontraram. Conta-se que Joudeth estava escondido dentro de um cano de moinho, feito de lata, local de difícil acesso, e foi necessário jogar uma corda para que pudesse subir. Ele foi preso, julgado e condenado, ficando encarcerado por longos anos. Seus familiares também foram investigados e levados a julgamento, porém nenhum foi declarado culpado.

Esta história faz parte da memória cultural alpinopolense, sendo lembrada, principalmente pelos mais velhos, até os dias de hoje. A tragédia motivou os versos do poeta Fiico Alvim, o Bola, que escreveu uma primorosa obra denominada A Morte do Jorginho (clique aqui para ouvir). Serviu também de inspiração para cantores sertanejos, com destaque para a dupla Moreno e Moreninho, que gravaram uma música com esse mesmo nome em 1983.

Por: Juliano Pereira de Souza

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